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Caderno B

‘MANUEL BANDEIRA E GUIMARÃES ROSA TAMBÉM APOIARAM O GOLPE’

Após críticas de escritores, Fernanda Diamant defendeu a escolha de Elizabeth Bishop

Por RUAN DE SOUSA GABRIEL/ O GLOBO | Edição do dia 28/11/2019

Matéria atualizada em 27/11/2019 às 22h07

‘Bishop não tinha a previsão do futuro, estava vivendo aquele momento’, diz curadora
‘Bishop não tinha a previsão do futuro, estava vivendo aquele momento’, diz curadora - Foto: Nino Andres / Divulgação
 

SÃO PAULO, SP – Fernanda Diamant, curadora da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) de 2020, descarta voltar atrás e escolher outro autor para ser homenageado pela festa literária, mas reconhece que “quem decide isso no limite é a direção da Flip”. Anunciada na segunda-feira (25), a homenagem à poeta americana Elizabeth Bishop foi veementemente criticada por escritores nas redes sociais. Bishop, que viveu 20 anos no Brasil e teve um longo relacionamento com a arquiteta Lota de Macedo Soares, apoiou o golpe militar de 1964. Em carta ao poeta americano Roberto Lowell, ela chamou o golpe de uma “revolução rápida e bonita” e defendeu a suspensão das liberdades democráticas: “tinha que ser feito, por mais sinistro que pareça”. Em outra carta, ela escreveu: “Manuel Bandeira é delicado e musical e tudo o mais - nada parece sólido ou realmente ‘criado’ - é tudo pessoal e tendendo para o frívolo. Um bom poema de Dylan Thomas vale mais do que toda a poesia sul-americana que já vi, com a exceção, possivelmente, de Pablo Neruda”. O poeta e ensaísta Antonio Carlos Secchin, da Academia Brasileira de Letras, destaca que Bishop falava “mal de praticamente todos os brasileiros”. Ele também questiona o momento para a homenagem à escritora americana. “Tenho a hipótese de que não houve critério político nenhum para a escolha dela, mas não me pareceu a adequada, até pelo quadro político atual, em que sabemos que a cultura e a literatura não estão entre as prioridades, para dizer pouco”.


CRÍTICAS ERAM PREVISTAS

Diamant concordou em responder algumas questões de O GLOBO por e-mail. Ela disse que já antecipava as críticas à escolha de Bishop, “uma grande autora, que, além de estrangeira, manifestou (...) muitas opiniões polêmicas, contraditórias e, por que não, retrospectivamente equivocadas e desinformadas”. A curadora lembrou ainda que outros escritores homenageados pela Flip em outros anos também apoiaram o golpe militar: “Manuel Bandeira e Guimarães Rosa apoiaram o golpe, também eles não poderiam ser homenageados hoje?”. Confira o que Diamant tem a dizer sobre o assunto:


Gazeta: A escolha de Elizabeth Bishop como homenageada da Flip tem sido criticada por conta de declarações dela em apoio ao golpe militar e também de comentários considerados negativos e preconceituosos sobre a cultura e escritores brasileiros. Você já antecipava que essas críticas pudessem acontecer?


Fernanda Diamant: Eu já sabia desse risco, conheço bem a obra de Elizabeth Bishop e resolvi, em comum acordo com a direção da Flip, enfrentar o desafio de homenagear uma grande autora que, além de estrangeira, manifestou, principalmente em cartas (que são obviamente de foro íntimo em sua origem), muitas opiniões polêmicas, contraditórias e, por que não, retrospectivamente equivocadas e desinformadas. Assim como Euclides da Cunha, um grande autor que foi homenageado de forma crítica e atualizada, a minha intenção é fazer o mesmo em 2020.


As posições políticas de Bishop foram levadas em conta na escolha?

Foram, no sentido de não terem sido consideradas impeditivas de uma homenagem. É preciso ler sua correspondência e sua obra para entender que esse tema não pode ser tratado de forma simplificada.

Muitos dos que criticaram a escolha a Bishop afirmaram que o problema não é só homenagear uma autora que defendeu o golpe militar, mas fazê-lo hoje, quando alguns políticos relativizam e até sentem saudades da ditadura. Você concorda? Acho que há uma confusão grande entre o agora e o passado. Manuel Bandeira e Guimarães Rosa apoiaram o golpe, também eles não poderiam ser homenageados hoje? Bishop não tinha a previsão do futuro, estava vivendo aquele momento, e de uma forma bastante específica. Acho que o tema precisa, isso sim, ser debatido antes e durante a Flip, mas de uma perspectiva histórica, cultural e aprofundada. Sugiro que as pessoas leiam a obra de Elizabeth Bishop. As redes sociais costumam reduzir tudo a uma ou duas frases.


Existe alguma chance de voltar atrás e homenagear outro autor?

Não vejo essa possibilidade, mas quem decide isso no limite é a direção da Flip.

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