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Caderno B

UM TESOURO DA LÍNGUA

Conheça o complexo dicionário de latim criado desde 1890 por pesquisadores; projeto expõe todas as maneiras pelas quais alguém utilizou um termo desde VI a.C.

Por ANNALISA QUINN/ NEW YORK TIMES | Edição do dia 03/12/2019

Matéria atualizada em 02/12/2019 às 19h56

Foto: Gordon Welters / New York Times
 

MUNIQUE — Quando pesquisadores alemães começaram a trabalhar num novo dicionário de latim, na década de 1890, eles pensaram que poderiam encerrar a obra em 15 ou 20 anos. Passados 125 anos — e a queda de um império, a deflagração de duas guerras mundiais e a divisão (e a reunificação) da Alemanha —, o Thesaurus Linguae Latinae, também conhecido sob a sigla TLL, só alcançou a letra R. Mas isso não acontece por falta de esforço dos estudiosos. De maneira diferente à maioria dos dicionários, que se concentram nos significados mais proeminentes ou recentes de uma palavra, o TLL pretende expor todas as maneiras pelas quais alguém utilizou determinado termo desde as primeiras inscrições em latim, no século VI a.C., até inscrições datadas de cerca de 600 d.C. Fundador dessa complexa compilação de vocábulos, Eduard Wölfflin, que morreu em 1908, descreveu os registros não como definições, mas como “biografias de palavras”. O primeiro termo, referente a letra A, foi publicado em 1900. Até 2050, espera-se que o robusto livro atinja, enfim, sua palavra final — “zythum”, uma cerveja egípcia. Com precisão meticulosa e velocidade glacial, o projeto acadêmico produziu, por enquanto, 18 volumes de enormes páginas com textos em fonte minúscula, em trabalho coletivo que envolve 400 estudiosos, alguns deles já mortos. As letras Q e N ainda não foram estudadas, já que são o início de muitas palavras difíceis. Em breve, os pesquisadores devem voltar a se debruçar sobre elas. “A escala desse estudo é prodigiosa”, diz David Butterfield, professor sênior de Cambridge, acrescentando que, quando a primeira publicação apareceu em 1900, “não passou despercebido o fato de considerarem a obra absurda”.


FERRAMENTA DE ENTENDIMENTO DA HISTÓRIA

Está mesmo aí um esforço monumental voltado para um pequeno grupo de classicistas, que se guiam por uma máxima exemplar: para eles, a capacidade de entender todas as maneiras pelas quais uma palavra foi usada se notabiliza como ferramenta de entendimento não apenas da literatura, mas da própria linguagem e da História. Outrora uma língua de um vasto império físico — e com grande domínio intelectual e espiritual —, o latim agora é falado praticamente apenas dentro dos muros do Vaticano e entre pequenos grupos de entusiastas que promovem sua prática como ferramenta educacional. Nos Estados Unidos, de 1970 para cá, a educação do idioma caiu acentuadamente, mas mantendo-se estável nas últimas décadas. Segundo Sherri Halloran, porta-voz do Conselho Americano para o Ensino de Línguas Estrangeiras, hoje há cerca de 210 mil estudantes dedicados ao aprendizado do latim em escolas públicas do país. O número é um pouco menor do que o referente ao chinês, por exemplo (no caso do espanhol, são 7,3 milhões de alunos dedicados à prática de aprendizagem). Mas por ser a língua literária principal na Europa há mais de mil anos, o latim é “a chave para uma parte considerável da história da humanidade”, ressalta Michael Hillen, diretor do projeto TLL. Cerca de metade das palavras em inglês também são derivadas direta ou indiretamente do latim. (Sem falar, é claro, de frases intactas, como “quid pro quo”, utilizadas com frequência).


DOCUMENTOS ANTERIORES A 600 D.C.

O poeta e classicista A.E. Housman, que morreu em 1936, certa vez se referiu aos estudiosos como “prisioneiros que trabalham na masmorra de Munique”. Mas o TLL agora está alojado em dois andares ensolarados de um antigo palácio. Em período integral, dezesseis funcionários e alguns lexicógrafos visitantes trabalham em escritórios e numa ampla biblioteca, onde há edições de todos os textos latinos sobreviventes anteriores a 600 d.C., além de cerca de 10 milhões de documentos amarelados, dispostos em pilhas de caixas até o teto. O acervo forma o coração do projeto. Organizadas cronologicamente, as palavras são apresentadas de acordo com um contexto: vêm de poemas, de textos em prosa, de receitas, de textos médicos, de recibos, de piadas sujas, de grafites, de inscrições e de tudo mais que sobreviveu às vicissitudes dos últimos 2.000 anos. A maioria dos estudantes de latim lê cânones literários sem estabelecer contato com a forma como o idioma era usado na vida cotidiana. Mas o TLL insiste que a pessoa anônima que insultou um inimigo com pichações numa parede em Pompéia, na Itália, é uma testemunha tão valiosa do significado de uma palavra latina quanto poeta ou imperador. “A leitura desses textos cria respeito, empatia e compreensão, o que não significa tolerar determinados comportamentos”, afirma Kathleen Coleman, membro do conselho que supervisiona o progresso do dicionário. “Não precisamos pensar que gladiadores defendiam uma ótima ideia. Mas podemos tentar entender o que eles estavam fazendo, o que eles pensaram... E também por que eles pensaram que o que estavam fazendo estava certo. É aí que obtemos alguma profundidade sobre a linguagem”.

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