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Caderno B

PINK FLOYD REGRAVA SONS DE DISCO DE SUA FASE ‘MALDITA’

Andy Jackson fala sobre trabalho feito em ‘Later Years’, caixa que reúne produção de 1980 e 1990

Por SILVIO ESSINGER/ O GLOBO | Edição do dia 03/12/2019

Matéria atualizada em 02/12/2019 às 20h08

Pink Floyd em registro de quase 40 anos atrás, na segunda metade dos anos 1980
Pink Floyd em registro de quase 40 anos atrás, na segunda metade dos anos 1980 - Foto: Reprodução
 

RIO DE JANEIRO, RJ - Sem o seu primeiro líder, Syd Barrett (que saiu em 1968, assolado por problemas mentais); e também sem o segundo, Roger Waters (que deixou a banda em 1985, depois de marcar época com o álbum “The wall”, de 79), o Pink Floyd continuou ainda por um bom tempo. Com os remanescentes David Gilmour (guitarrista, que assumiu de vez os vocais), Nick Mason (baterista) e Richard Wright, a banda singrou pelos anos 1980 e 90 como um belo e altivo dinossauro do rock e construiu uma história que está sendo revisitada e redimensionada pela luxuosa caixa “Pink Floyd The Later Years”, com 16 discos (cinco CDs, seis blu-rays e cinco DVDs), que saiu no exterior ao preço de US$ 350 (no Brasil, ela chega ao streaming, em forma de quatro discos digitais). Ela cobre o período em que o grupo lançou dois álbuns de estúdio (“A momentary lapse of reason”, de 1987; “The division bell”, de 1994; e o póstumo “Endless river”, de 2014) e dois ao vivo (“Delicate sound of thunder”, de 1988, e “Pulse”, de 1995). Seus discos trazem uma recuperação de material pouco visto (como o vídeo dos shows em Veneza em 1989 e em Knebworth em 1990), algumas gravações inéditas e, principalmente, uma reconstrução sonora do álbum de 1987 (que a banda julgava sonoramente datado), com novas partes de teclados e bateria.


ONDA DIFERENTE

Engenheiro de som que começou a trabalhar com o Pink Floyd em 1980 (e responsável pela realização de “Later years”), o inglês Andy Jackson acompanhou as sessões do disco original. “Eles ficaram muito focados em ‘Momentary lapse of reason’. Tudo ficara diferente sem Waters, ele era uma força criativa muito grande e tínhamos que pensar em algo diferente”, conta Andy, por telefone. “E foi por isso que o álbum saiu daquele jeito. Havia uma ideia de que deveríamos fazer um disco com sonoridade moderna. E ele tinha mesmo uma sonoridade moderna naquela época, só que hoje ele soa velho. Por isso que decidimos mexer ali, ele não se encaixava com todo o resto, ele parecia um disco feito nos anos 1980”. O trabalho começou há mais de uma década, quando Nick Mason começou a refazer a bateria do disco. Mas aí Richard Wright ficou doente (ele morreria de câncer, em 2008) e o projeto foi abandonado. Quando retomaram a ideia, os músicos resolveram usar teclados de Wright retirados de gravações ao vivo. “Não refizemos tantas coisas assim, foram só alguns pequenos pedaços, mas que fizeram uma grande diferença para o clima do disco”, garante Andy Jackson, que também foi técnico de som nas gravações de “Division bell”, para o qual buscou uma sonoridade “mais clássica”. “De uma certa forma, esse disco soa como um disco que tivesse sido feito logo depois de ‘Dark side of the moon’ (1973) ou ‘Wish you were here’ (1975). O ponto de partida foi botar a banda para tocar junta e improvisar, o que deu num trabalho bem mais orgânico, uma reação ao disco anterior. E ter tocado bastante na turnê de ‘Momentary lapse of reason’ ajudou bastante, eles estavam bem, confiantes”, ressalta o engenheiro de som. A caixa recupera gravações das sessões de “Division bell” que não acabaram no disco, ou que foram refeitas para “Endless river”. Uma delas é “Nervana”. “Era um título de brincadeira, o que a gente faz toda vez que grava uma música que ainda não tem letra, para ter o que escrever na caixa da fita. Ela ia se chamar ‘You got nerve’ (‘Você tem coragem’, em tradução livre) e, na cabeça do David (Gilmour), soava um pouco como o Nirvana. Por isso o título”, recorda-se Andy.


NOVO OLHAR

Refeito ou apenas remixado, o material de “Later years” dá a oportunidade de se lançar um novo olhar sobre uma fase do Pink Floyd que foi desprezada pelos críticos em sua época. “É difícil ficar à sombra da era ‘Dark side of the moon’, aquilo foi muito grande. Mas agora que essa caixa vem com gravações melhoradas, inclusive na mixagem, dá para ver que tem um monte de coisas boas. Se você ouvir o show em ‘Delicate sound of thunder’, é uma banda no melhor da sua forma. E ‘Division bell’ é um dos álbuns que mais venderam. Se os críticos não deram bola para eles, ao menos o público deu”, diz o produtor, avisando que não espera muito mais do baú da banda. “Talvez haja muitos experimentos que não foram lançados, mas isso aconteceu porque não eram bons o suficiente”.

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