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Caderno B

PRATICANTES TAMBÉM OPINARAM SOBRE MUDANÇA DE LOCAL

Transferência do Xangô Rezado Alto é visto como incoerente por candomblecistas

Por LUAN OLIVEIRA*/ ESTAGIÁRIO | Edição do dia 01/02/2020

Matéria atualizada em 04/02/2020 às 09h51

Quebra foi motivado por boatos espalhados como estratégia política, mais de 100 anos atrás
Quebra foi motivado por boatos espalhados como estratégia política, mais de 100 anos atrás - Foto: RG PROFISSIONAL;332/AL
 

“O governador fugira de palácio. A tia Marcelina agonizava. Deram-lhe uma surra tremenda! De agora por diante, Alagoas — livre dos “lebas”, ingressava no regime da verdadeira democracia…”. Assim se encerra a crônica de Povina Cavalcanti publicada em uma revista alagoana na década de 30. Era alardeado nos corredores oposicionistas que o então governador de Alagoas fora eleito por desígnios de magia negra, e os praticantes de religiões de matriz africana eram os principais vitimados. Ítalo Santos, praticante e frequentador assíduo do Xangô Rezado Alto, também discordou da mudança. “Para mim o local ideal para a realização do Xangô Rezado Alto seria a Praça Sinimbu, relatos históricos nos levam a crer que o terreiro de Tia Marcelina, principal mártir do Quebra de 1912, foi assentado naquela região”, diz, em referência a figura citada na crônica acima. Ele acredita que desde que a realização do evento passou para a prefeitura, parte do caráter de resistência do cortejo foi suplantado por interesses políticos e econômicos. “Não há uma busca por interação das Casas de Axé e muito menos uma conscientização para a real importância desta data”, alega. Para Ítalo, o evento sob alçada da universidade levava a um reforço da importância de se professar livremente a religião, “sem que haja medo da morte”. O Xangô da Tia Marcelina, como era conhecido o local onde a mulher fazia seus trabalhos, é rememorado sempre durante o tradicional cortejo. Esse ano, não será possível uma aproximação a essa memória. “Não vejo fundamento nessa mudança de local”, colocou Wilson Santos, percussionista e fundador da Orquestra de Tambores. Para Wilson, falta um trabalho de base continuada do poder público junto das casas da cidade. “É preciso fazer um trabalho de conscientização, muita gente sequer sabe o que aconteceu [em 1912]”, afirma. Em sua visão, o público potencial de todos os eventos ligados à cultura africana do estado não será atingido até esse trabalho começar a ser feito. Em um evento desses, ele diz, “um tambor que soe por soar é só um barulho”.

A Orquestra de Tambores não participa do Xangô Rezado Alto faz um tempo. Wilson diz que participar no evento com as ressalvas que ele tem é errado, “ou a gente tá sendo conivente ou a gente tá sendo hipócrita”, diz. Também é crítico do que vê como uma crescente desarticulação dos atores dessa cena. “Na década de 90, a gente fretava ônibus e subia a Serra [da Barriga] com o tambor nas costas”, conta. “Hoje é tudo dependente de cachê”. Ele acredita que uma mudança lógica seria, por exemplo, levar o Xangô para a zona sul da capital, onde ficam bairros como Vergel e Trapiche. “Ali tinham muitas casas antes. Você saia na rua sexta feira a noite, e só ouvia o tambor soando”, diz. Ele afirma que a região também foi muito afetada com o Quebra. “Essa decisão [de mudar o local] pode ser lógica no ponto de vista turístico, de atrair mesmo. Mas não é essa a proposta do cortejo”.

*Sob supervisão da editoria de Cultura

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