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CRÍTICA NO B

AMEAÇA INVISÍVEL

Releitura do clássico de H. G. Wells dialoga com o presente; filme estava em cartaz no começo da pandemia e migrou para a locação via internet

Por luan oliveira | Edição do dia 25/03/2020

Matéria atualizada em 25/03/2020 às 11h29

Foto: Divulgação
 

Com os cinemas fechados devido à pandemia do novo coronavírus, muitas gigantes dos filmes decidiram lançar imediatamente suas produções que estavam em cartaz para consumo domiciliar. A Universal seguiu a tendência e disponibilizou o longa “O Homem Invisível”, de Leigh Whannell, on demand. O filme é uma releitura moderna do clássico escrito pelo pai da ficção científica, H. G. Wells, que se popularizou pelo longa de 1933 de James Whale.

Muitos homens invisíveis pipocaram pelas telonas desde então, sempre girando em volta de um cientista que vai à loucura por conta de sua própria invenção. Whannell subverte isso, contando a história de uma mulher, Cecilia Kass (Elisabeth Moss), que se vê perseguida por seu ex-marido abusivo Griffin (Oliver Jackson-Cohen), um cientista do campo da ótica que aparentemente fingiu suicídio e se tornou invisível para atormentá-la.

Conceitualmente, o filme é impecável. Discutir de forma natural temáticas complexas como vingança, stalking e gaslighting por meio de um clássico imortalizado é um desafio à altura do cineasta, que já se firmou no gênero terror com outros longas da produtora Blumhouse, como a envolvente saga “Sobrenatural”. O longa conta com táticas de direção inventivas, como câmeras apontando para o nada enquanto a ação ocorre em outro local, indicando que há uma presença ali. Para quem espera jumpscares baratos, eles não existem aqui: a longa exposição de cantos vazios de uma sala não criam nada além de uma atmosfera de constante tensão que explode em elaboradas cenas de ação.

Lutar contra um inimigo invisível é uma encenação difícil de se fazer, mas Elisabeth Moss é mais do que capaz. Por falar na atuação do elenco, vale destacar as expressões faciais de Moss. O terror presente em seu rosto, o cansaço evidente e um tanto de resignação são visíveis em cada tique facial da atriz, que é incessantemente explorado por takes fechados do diretor. São incontáveis as cenas onde a atriz cai no chão ou sai voando pelo o ar com a câmera completamente focada e fechada em seu rosto, um Whannell consagrado, mas cansativo em certa altura. O restante do elenco também cumpre bem seu papel, questionando a sanidade mental e narrativa de Cecilia sem irritar o telespectador, com falas e ações que geram empatia em suas posições de dificuldade em dar crédito à história. Vale destacar o personagem de James Lanier (Aldis Hodge), que cumpre o papel do guardião de Cecilia e de pai zeloso de Sydney (Storm Reid), personagem com bastante potencial, mas pouco explorada pelo roteiro e que é deixada como artifício emocional para o arco final do longa.

Majoritariamente silencioso, os sons ficam restritos à guitarras distorcidas e barulhos eletrônicos altos e estridentes que explodem nos momentos de ação. Fica a impressão que a ausência de emoção visual (jumpscares, aparições bruscas) está sendo compensada pela emoção sonora (barulhos altos), transformando um elemento que poderia ser muito bom em mais um artifício barato. As imagens do filme são de tirar o fôlego.

De uma simples conversa com câmera sob o ombro do interlocutor até a vista impressionante da mansão de Griffin, a direção de fotografia do filme, sob o comando de Stefan Duscio, é colírio para os olhos. Fator importante, considerando que O Homem Invisível corre por duas horas não exatamente densas. Nos bastidores, o filme seria parte de uma empreitada da Universal de ressuscitar personagens clássicos do terror. Tudo começou com o reboot de A Múmia, de 2012, sob chefia de Alex Kurtzman. O nome da franquia seria “Dark Universe”, e buscava competir com o trend de filmes de super heróis. Falhou. O Homem Invisível sequer teve o selo do universo em seu material de divulgação e A Múmia amargou em crítica e bilheteria.

No lado da Blumhouse, O Homem Invisível é mais um sucesso. A produtora é conhecida por filmes como “Sobrenatural”, “Corra!” e “A Entidade”. Terror de baixo orçamento, amplamente difundido, com alta bilheteria. Agradam público e crítica igualmente, com um conteúdo denso mas uma apresentação popular. Uma companhia de Shakespeare do cinema contemporâneo.

Tirar o filme do cinema diretamente para o home vídeo foi uma ótima opção da Universal para fugir dos rombos que a pandemia do coronavírus vem gerado no setor cultural e no cinema. Para o público, é mais um filme de terror para assistir em casa, longe dos perigos reais que nos assombram. Perturbadoramente relacionável, porém: tanto nós quanto Cecilia lutamos contra uma ameaça invisível, que alguns negam existir.

Serviço: O Homem Invisível
Lançamento: 2020
Direção: Leigh Whannell
Disponível para aluguel digital em: Apple TV, Amazon, YouTube
Nota: 8/10

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