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Caderno B

“NAS RUAS, AS PESSOAS ESTÃO DEPRIMIDAS, AGRESSIVAS, MAL-EDUCADAS”

Ao rever 30 anos de carreira e lançar faixa inédita, Fernanda Abreu diz que a onda agora é ‘ser bundão’

Por BRUNO CAVALCANTI/ FOLHAPRESS | Edição do dia 15/09/2020

Matéria atualizada em 14/09/2020 às 23h35

*ARQUIVO* RIO DE JANEIRO, RJ, 05.10.2019 - A cantora Fernanda Abreu se apresenta no Rock in Rio. (Foto: Eduardo Anizelli/Folhapress)
*ARQUIVO* RIO DE JANEIRO, RJ, 05.10.2019 - A cantora Fernanda Abreu se apresenta no Rock in Rio. (Foto: Eduardo Anizelli/Folhapress) - Foto: Eduardo Anizelli/Folhapress
 

Em 1990, Fernanda Abreu despontou com seu primeiro disco solo “SLA Radical Dance Disco Club” e, em entrevista a este jornal, cravou que a onda da vez era “ser negão”. Passadas três décadas, a carioca olha para sua trajetória e garante que, agora, a onda é “ser bundão”. Embora alguns colegas não vejam a música moderna com bons olhos, direcionando suas críticas ao funk, que chamam de ode à bunda, o comentário nada tem a ver com o ritmo do qual ela se tornou uma defensora desde que subiu o morro no final dos anos 1980 com o amigo DJ Marlboro. O alvo é o cenário político. “Do jeito que está não dá para continuar. Nós merecemos governantes que estejam comprometidos com esse país, com saneamento básico, educação, o desenvolvimento do espírito crítico e político nas pessoas. Tudo é política, desde namorar até pagar imposto”, diz a cantora que se assustou com a guerra instaurada pela Secretaria de Comunicação contra o humorista Marcelo Adnet. “O Mario Frias não gostar da imitação e fazer um post no perfil dele, vá lá. Mas a Secom entrar na jogada é absurdo, passa a ser institucional, vira uma guerra do governo contra os artistas, é revoltante.” O sentimento é o mesmo quando se refere à sua cidade. Com o afastamento do governador Wilson Witzel, do PSC, e as acusações de irregularidade contra o prefeito Marcelo Crivella, do Republicanos, Abreu só vê uma solução -tomar o Rio de Janeiro de volta. “Eu espero uma conscientização. Espero que as pessoas entendam que o Estado é laico. Não adianta ter a cidade mais linda do Brasil e não cuidar. Nas ruas, as pessoas estão deprimidas, agressivas, mal-educadas. O DNA do carioca é outro, ele é inventivo, divertido, inteligente. Temos que tomar a cidade de assalto. O Rio não é da milícia, da polícia, do tráfico, da igreja, é do carioca! Queremos o nosso crachá”, diz, incrédula com a reação das pessoas com a pandemia do novo coronavírus. Isolada há seis meses, Abreu viu a pandemia redefinir seu 2020, quando celebraria 30 anos de carreira com uma turnê e o lançamento do DVD do registro do show “Amor Geral”, baseado no disco que, em 2016, quebrou o jejum de uma década sem material inédito. O DVD chegou a ser gravado, mas sem o público que formava fila na frente do Imperator Centro Cultural João Nogueira, no Méier, já que a cantora foi surpreendida por um ofício do governo que decretou o fechamento de espaços culturais quando se preparava para subir no palco. “Foi desesperador! A gente com aquele circo armado, investi uma grana alta, não dava para cancelar. Usei toda a minha experiência de palco para jogar a energia lá em cima e aproveitar o momento.” O material ficou meses sem destino até a cantora decidir que em outubro ele chegará ao mercado. Ainda não se sabe se em DVD ou em streaming. O registro é só um dos lançamentos que Abreu agendou para celebrar sua trajetória. A artista colocará nas lojas duas coletâneas. A primeira, “Slow Dance”, é uma seleção das baladas mais marcantes de sua discografia. “A galera tá buscando uma memória afetiva que me inspirou a mexer no meu catálogo. E tinha uma cobrança dos fãs de eu não cantar as minhas baladas.” O disco contará com pelo menos uma novidade -a versão inédita em estúdio de “Dance, Dance”, de Rodrigo Maranhão, gravada na série MTV Ao Vivo. Com CD e DVD fora de catálogo por causa da briga judicial entre Abril e Viacom pelo acervo da emissora, Abreu entrou em estúdio para registrar a canção, nas plataformas desde o dia 8 de setembro, seis meses depois do lançamento de “Do Ben”, música inédita em que celebrou o ídolo Jorge Ben Jor. A segunda é “30 Anos de Baile”, com remixes de seus sucessos sob a batuta do DJ Memê. Com planos de lançar um disco de inéditas em 2021 e um documentário dirigido por Paulo Severo com o registro da turnê e a gravação de “Da Lata”, título essencial em sua obra, Abreu acalenta ainda o desejo de gravar um disco de sambas, uma de suas grandes paixões junto ao funk, do qual se tornou madrinha e defensora há 30 anos. “Vivi o funk intensamente! Ainda rola de uma certa ‘intelligentsia’ dizer que o funk não pode representar a música brasileira. É o preconceito com o pobre, com o preto, com o favelado, mesmo com o funk no mainstream. Sigo de braços dados com ele.” Celebrada no funk, a eterna garota suingue sangue-bom se vê mesmo como uma veterana da música pop que soube sobreviver. “O pop tem essa característica de ser meio descartável. Eu sempre tento aprofundar o meu som, trazer um frescor. O artista pop tem que se reinventar para continuar criando. Se cai na fórmula, vira descartável.” Aos 59 anos, a cantora não se importa com a busca pela juventude. “As pessoas são bem obcecadas com idade, nunca tive isso. Acho fútil, mas se for pra servir de estímulo a outras mulheres, ser um exemplo de que podem estar bonitas e com saúde, acho bacana.” É na pauta feminista que a artista vê o avanço. “Depois da primavera das mulheres de 2013, o feminismo deu passos largos. Foi uma das coisas mais incríveis que avançaram na sociedade, mas ainda existe muita violência”, diz. “Essa facilidade com que os homens matam as mulheres é a coisa mais revoltante que existe, qualquer pessoa de bem tem que entrar de cabeça na luta a favor da mulher.”

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