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BANHO DE CUIA NO MEIO DA RUA

Músico arapiraquense lança álbum “O Time da Mooca” evocando a amizade e a infância livre

Por Breno Airan* | Edição do dia 18/11/2020

Matéria atualizada em 21/11/2020 às 02h43

Foto: Rodrigo Cruz
 

Todo moleque é, de certa forma, um flâneur, um andante, um perambulador de ruas. Até o grito da mãe aparecer traduzido no vento.

Então, acaba sendo mais saudável mesmo ficar pela vizinhança e conhecer os limites dessas quatro-linhas-postiças delimitadas no bairro que a gente mora.

Trazendo esse aspecto nostálgico para o seu segundo álbum de estúdio “O Time da Mooca”, o músico arapiraquense Ítallo França, de 28 anos, lançou neste 17/11/2020 a refundação do clube de outrora do bairro São Luiz II.

O trabalho autoral pode ser conferido gratuitamente no Youtube (Ítallo França) e, no decorrer deste mês, nas demais plataformas de streaming, como Spotify, Deezer e iTunes, entre outras.

Agora eternizado em som e samba, o Time evoca os tempos de bola no meio das pernas, mangação, gritos de gol, janelas quebradas, sorrisos de canto de boca, topada de arrancar o tampão do dedo, troféu de refrigerante, camaradagem e os olhos bem abertos ao que acontecia na Rua Marinete Lopes de Oliveira.

Ítallo morava por trás dela, na Avenida Muniz Falcão, nº 250, mesmo bairro. Os amigos todos se reuniam na Rua Marinete, a famosa Rua da Mooca.

Seu vizinho Breno também seguia o rumo da bola, mas teve de infelizmente ser “substituído” no Time antes da hora. Morreu precocemente, muito jovem. Ganhou menção no disco e no placar da memória.

Também estão por lá “Orlando Golada”, “Zé Vigia” e “Thiago, o Meu Irmão Mais Velho” — esta última canção entrou nos 49 do 2º tempo e curiosamente traz um clima parecido com o do primeiro álbum de Ítallo, “Casa”, de 2016, lançado pela Montana Records. Aqui e agora, com influências do cancioneiro nordestino bem maiores.

Neste novo trabalho, ele sai de “Casa” e vai para o meio da rua jogar travinha e disputar mudinhas, carambolas e leitosas correndo pelo chão, palmo a palmo.

“A ideia é basicamente falar dos meus amigos de infância. Assim como o ‘Casa’, é um disco de memórias; a diferença é que não falo das minhas memórias domésticas e, sim, da minha segunda família, meus amigos”, diz ele, que vem trabalhando na concepção do disco desde 2016. Nele, canta, toca violão, guitarra e baixo e executa samples.

O álbum, gravado de forma independente no Estúdio Toca do Siri, do músico Alexsandro “Siri” Cardoso, foi produzido e mixado por Ítallo e ele. A masterização foi também realizada por Siri.

Fruto do Edital de Fomento à Criação Artística Arapiraquense - Prêmio Mestre Nelson Rosa, da Prefeitura de Arapiraca, a obra conta com todas as músicas sendo de composição de Ítallo, exceto “Duas Ximbras”, de Filipe Sena.

As boas surpresas também são as participações e os músicos que batem bola com ele: Janu, Paulo Franco, o próprio Siri, Noaldo do Acordeon, Ricardo Evangelista, Thiago Luz, Pai Alex Gomes e Banda de Pífanos São José, Marvin e Rodrigo Cruz (que, inclusive, é o dono da foto de capa do álbum).

Quem ouve, sente o alumbramento do alambrado do meio-fio. Parece estar lá, entoando junto o novo hino oficial do Time da Mooca.

Com influências de Gil, Jorge Ben e Moraes Moreira, o samba, o coco, o pife, a embolada e a alagoanidade estão muito presentes nesse álbum, que canta e toca o passado com gentileza e saudade boa.

É só matar no peito, empurrar e sair para o abraço fraternal. Pés descalços, uma vez mais.


*Breno Airan é jornalista, músico e poeta de Arapiraca-AL

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