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Caderno B

Quem é você, Alagoas?

“Isso é um simulacro de Alagoas”, diz Edson Bezerra, autor do Manifesto Sururu, ao questionar o apagamento da memória negra e o tratamento que o Estado confere à própria história

Por Maylson Honorato | Edição do dia 20/02/2021

Matéria atualizada em 18/02/2021 às 22h18

| RicardoLedo

Dois meses após a polêmica tentativa de mudar o nome da Praça Dandara, em Maceió - ação revertida pela pressão popular e pela ação do movimento negro de Alagoas - Edson Bezerra, antropólogo, professor e artista alagoano, analisa a questão como um “fenômeno pontual, factual, que faz parte de um problema antigo e muito maior”: o apagamento da memória alagoana e a ausência do que ele chama de locais de memória.

Para o pesquisador, que é autor do Manifesto Sururu (2004), Alagoas precisa fazer as pazes com a própria história e torná-la visível no dia a dia. Bezerra defende também que é preciso mudar a representação do que é Alagoas no imaginário popular, que a reconhece como terra de sol e mar ou, ainda, como terra dos marechais. “Isso é um simulacro de Alagoas.”

As pautas são antigas, mas talvez nunca tenha havido tanto espaço para discuti-las. O desconhecimento da própria história, segundo o professor, é o que impossibilita os alagoanos de brandir com orgulho a bandeira de Alagoas e saber que o Estado é muito mais do que suas praias paradisíacas, muito mais que seus personagens políticos ou polêmicas. Um bom começo para desconstruir essa “farsa”, diz Edson, seria reconhecer e sinalizar os espaços  públicos construídos pela negritude alagoana, a exemplo de igrejas católicas, como a do Rosário, Martírios, São Benedito e Nossa Senhora das Graças.

Edson, que também foi um dos idealizadores do Xangô Rezado Alto - cujo primeiro cortejo ocorreu em 2006 e percorreu o trajeto da Praça 13 de Maio, onde está a escultura da Mãe Preta, criada pelo mestre Zumba, até a Praça Sinimbu, local que abrigava um terreiro que foi destruído - afirma que o projeto original do evento já previa afixar placas nos locais em que os terreiros de Candomblé foram massacrados no terrível Quebra de Xangô, nos bairros Jaraguá, Farol e no Centro da cidade, fazer a articulação entre os quilombos urbanos, o artesanato e a cultura afro com a realização de um Festival de Cultura Negra envolvendo os afoxés, maracatus e as demais manifestações culturais e artísticas, como a dança afro, o samba de pagode, as baianas, o movimento hip hop, o reggae.

“A religiosidade de matriz africana não deve ficar à parte da sociedade alagoana, que deve conceber que a alma do povo alagoano é a cultura negra exposta no corpo, na oralidade, nas cores, nas vestimentas e indumentárias”, afirma o professor e pesquisador.

“Essa representação de Alagoas, que a reduz a paraíso das águas, soterra as culturas, principalmente as culturas negras,. Essa identidade dominante faz com que haja necessariamente uma identidade dominada, inibindo articulações práticas, fragilizando a memória e fazendo com que existam equívocos, como o caso da praça”, completa Edson.

“Essa questão [da mudança no nome da praça], não é culpa de uma pessoa só. É culpa da sociedade alagoana. Nós negros, por exemplo, precisamos de uma postura mais propositiva do que reativa. Somente quando ocorre algo desse tipo é que entramos nas discussões acerca da cidade, que há muitos vem deixando a cultura negra soterrada. A cidade de Maceió não tem uma estátua de Zumbi, a gente tem um prédio chamado República dos Palmares, mas é algo ornamental, sem identidade. Precisamos tornar esses marcos reais, sinalizados, conhecidos, não é possível amar algo que não se conhece”, defende o antropólogo, que continua:

“Onde está o maior registro do Quebra? Você sabe? No Instituto Histórico, em um museu, no lugar do vencedor, como coisa para turista ver. Como as pessoas, os alagoanos, podem conhecer a própria história se a história da Tia Marcelina está apagada? É preciso reconhecer que existe uma negritude se mexendo, se articulando, discutindo racismo, o que é muito importante, mas essa questão da visibilidade é algo que precisa ser pautada com urgência.”


Foto: RicardoLedo
 

O CASO DA PRAÇA

O primeiro mês de 2021 nem tinha acabado quando o prefeito JHC (PSB) sancionou o projeto de lei que renomeava  a praça Dandara dos Palmares, que passaria a se chamar Praça Nossa Senhora de Rosa Mística. A ideia da mudança foi do vereador Luciano Marinho (MDB), que alegou ter sido procurado por moradores da região.

De acordo com o vereador, a proposta - aprovada sem questionamentos pela Câmara de Maceió - transitou sem problemas porque ninguém sabia que a praça se chamava Dandara dos Palmares. Após a mudança ser publicada no Diário Oficial e repercutir, inclusive na imprensa nacional, o prefeito JHC revogou a alteração.

“Questões como essa não afetam apenas a memória negra, que está sendo apagada da cidade, é a memória da própria cidade. Existe um débito dos maceioenses, não com a história negra, mas com a própria história, que, queira o maceioense ou não, é negra”, defende o professor Edson Bezerra.

O antropólogo propõe que os movimentos, políticos, imprensa e cidadãos em geral repensem a cidade.

“Olhemos para a Bahia, para Pernambuco, como os centros dessas cidades estão sinalizados, como a memória que formou aquela sociedade está visível, em placas, em pontos de memória, praças, estátuas. Isso não é algo pequeno”, diz.

“[Melhora] no mínimo a autoestima das pessoas. Mas é preciso perceber que sinalizar, exibir a memória, faz com que se articule mudanças, impulsionando a economia criativa, fazendo desses lugares locais funcionais”, explica Bezerra, que também pontua que a presença dessa memória “nas ruas” também resultaria em mudanças sociais.

“No imaginário alagoano atual, tudo se desloca para a Ponta Verde, é tudo na base do simulacro. A Alagoas real é profunda, está nas entranhas, nos negros, no hip hop, nas periferias. O negro, quando aparece na Ponta Verde, é para levar ‘baculejo’. Mas é negra a história, a alma de Alagoas.”

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