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A CURA DA CRIANÇA INTERIOR

Técnica holística desenvolvida por psicóloga alagoana promete sanar traumas subconscientes

Por LUAN OLIVEIRA* ESTAGIÁRIO | Edição do dia 08/02/2020

Matéria atualizada em 07/02/2020 às 17h45

Um homem se sente incapaz toda sua vida. “Não sei”, “não consigo”, “não vou”. O medo de falhar atrapalha qualquer tratativa. Não conhece as origens de seu medo, mas eles estão lá: cinco anos, ouviu da mãe o grito ‘menino estúpido!’, e estúpido se intitulou pelo resto da vida. A fisionomia da mãe, seu olhar severo, a raiva emanando de seu corpo ficaram marcados na memória subconsciente até a vida adulta.

A Terapia de Cura da Criança Interior, proposta pela psicóloga Eliane Ferreira, segue concepções freudianas sobre as origens dos traumas: crianças com desenvolvimento cognitivo incompleto são capazes de armazenar memórias no subconsciente e vivenciar traumas pelo resto de sua vida, sem estarem cientes disso. Por meio de diálogo, são capazes de vasculhar e encontrar essas memórias dentro de si, confrontando-as e alcançando a libertação.

“Uma cliente sentiu um impacto durante uma das nossas sessões. Era uma queda que a mãe levou quando estava grávida”, conta a psicóloga, que explica uma linha do estudo psicológico que acredita que a criança é capaz de sentir e ser afetada por acontecimentos durante o período de gestação.

Formada em pedagogia na Universidade Federal de Alagoas (Ufal) em 1975, Eliane sempre teve uma paixão pela psicologia. “Tive muito contato com crianças, com educação”, conta. Voltou sua atuação à infância, mesmo após sua graduação em psicologia, em 1989, no Cesmac. A junção das duas paixões a levaram a se especializar em psicopedagogia em 2000 e obter grau de mestre em Educação posteriormente.

“Sempre tive meu estudo voltado para a infância, e essa concepção da influência dessa idade no restante da vida do indivíduo”, afirma. Se aproximou de teóricos como Freud, Piaget e Erikson e começou seus estudos na criança interior. Fez formações holísticas, como bioenergética e cura metafísica, área controversa e considerada anticientífica, mas com vários adeptos e entusiastas ao redor do mundo.

A psicóloga conta que começou a pensar em compartilhar seu trabalho com outros recentemente. “É algo que eu faço com muita paixão [...], eu não sou infinita, nem vou trabalhar para sempre”, diz com sua voz calma, explicando que resolveu abrir um curso, inicialmente restrito para psicólogos, mas depois ampliado para outros públicos que queiram atuar além das clínicas. “Mas eu coloco critério, uma formação superior, já ter feito terapia”.

Fará com sua turma, restrita a 15 participantes, 10 encontros por mês aos sábados, no intensivo horário das 09h às 18h. “Primeiro algo teórico, pela manhã. Depois, quem se sentir preparado faz uma sessão prática na tarde”, detalha. Informações sobte o curso podem ser obtidas pelo e-mail elianeferreira@oi.com.br.


CICLO TRAUMÁTICO

Eliane critica o que considera um ciclo de traumas que ocorre no sistema educacional brasileiro, com uma alta cobrança dos professores e uma baixa remuneração, que os deixa as vezes nocivos em sala de aula. “No Centro de Educação [Cedu, faculdade de educação da Ufal], sempre via alguns colegas fazendo coisas do trabalho no intervalo das aulas, ou até durante”, conta.

Uma melhor qualificação para a realidade da sala de aula e um melhor entendimento das consequências da postura do professor em sala de aula no desenvolvimento dos jovens são algumas das soluções propostas pela psicóloga. “Muitos dos que vão à terapia tem como origem dos seus traumas os professores”, conta.

Familiares também são problemáticos, à moda freudiana. “Se houvesse uma formação de como ser pai, seria ótimo”, brinca. E justamente por não haver, a psicóloga também trabalha nas sessões a não-responsabilização dos atores pelos traumas. “Sempre peço para o paciente dizer à sua criança interior: ‘sua mãe não teve culpa, ela aprendeu assim’, ‘seu professor não fez por mal, ele talvez não tenha tido um bom preparo’”, conta.

Um livro de sua autoria, publicado pela Editora da Universidade Federal de Alagoas (Edufal), trata a questão dos professores no desenvolvimento infantil e abrange suas críticas ao modelo de educação: “Ser Professor ... ...Ser humano: Por uma ética pessoal e planetária”, publicado em 2006. Sua dissertação de mestrado foi a base para o livro.

Há uma ampla bibliografia acadêmica sobre o tema da criança interior e suas influências no ser humano. A psicologia positiva, que faz críticas à abordagem normalmente restrita ao adoecimento que a disciplina lança mão, defende uma reconexão com essa parte da personalidade para uma vivência mais feliz.

Evidências sobre curas por regressão e registro subconsciente de traumas de infância, principalmente no período de gestação, são limitadas e, normalmente, refutadas pelos demais. Apesar disso, Eliana sustenta que quem passa por sua terapia sai transformado. “Cuidar da criança interior é resgatar nossa Herança Divina, cuidar do Sagrado em nós”, diz um panfleto do seu curso, entregue à reportagem.  

* Sob supervisão da editoria da Revista Maré.

Especialista prepara um curso sobre abordagem
Especialista prepara um curso sobre abordagem - Foto: Maria Clara Araújo
 



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