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O PRIMEIRO DIA DAS MÃES

Mães de primeira viagem relatam desafios da maternidade em meio às incertezas da pandemia do novo coronavírus

Por MAYLSON HONORATO | Edição do dia 09/05/2020

Matéria atualizada em 09/05/2020 às 04h39

“Me tornei mãe, depois de 5 anos tentando, numa época que nem nos meus piores sonhos imaginei viver.” - O relato é de Fernanda Trani, de 36 anos, que há pouco mais de um mês apresentou ao filho Gabriel um mundo diferente do que ela havia planejado. A pandemia do novo coronavírus, que se mostra o maior desafio das últimas gerações, impôs uma outra experiência às mamães que esperam ou que deram à luz durante a quarentena. Pela mesma razão, o primeiro Dia das Mães dessas mulheres será celebrado em isolamento social, em meio a tantas incertezas, mas com esperança em um futuro melhor para seus filhos.


O primeiro caso de Covid-19, doença causada pelo novo coronavírus (Sars-CoV-2), foi registrado no Brasil no dia 26 de fevereiro. Do primeiro dia de março até a última quarta-feira (6 de maio), 5.679 nascimentos foram registrados em Alagoas, de acordo com dados da Associação dos Registradores de Pessoas Naturais (Arpen). Os desafios durante a pandemia são ainda maiores para todas essas famílias, que sonharam, esperaram e planejaram para receber seus novos integrantes.


Para Fernanda Trani, a gravidez foi uma extensa jornada, que começou cinco anos atrás, e que precisou ser acompanhada de perto por especialistas, com a finalidade de evitar que a criança desenvolvesse o câncer infantil superado pela mãe. Ela conta que a expectativa de toda a família era gigante, que deu tudo certo, mas que a reta final da trajetória foi, “digamos, estranha”.


“No início, ainda estava tranquila. Quando me vi no cenário atual, decidi que todos os planos A, deveriam se transformar em B. Adiantei o parto, optei por uma cesárea, tive restrição de visitas e isolamento quase que total. Saindo apenas para consultas médicas e vacinação do bebê”, conta.


Gabriel, filho de Fernanda, nasceu no dia 22 de março, apenas um dia depois do primeiro decreto do governo do Estado acerca da pandemia.


“Confesso que está sendo um momento de apreensão, mas, ao mesmo tempo, grandioso por estar em total conexão com meu filho e meu marido Alexandre, que tem sido minha rede de apoio, devido a impossibilidade de outras pessoas estarem junto de nós”, conta Fernanda, acrescentando que o pai dela veio de Belo Horizonte para Alagoas e resolveu cumprir o isolamento social junto com a família e aproveitar ao máximo os primeiros meses do netinho.


Algumas mães, no entanto, ainda não conseguiram apresentar os bêbes aos avós, tios, primos e amigos. Com o isolamento social, esse momento ficará para daqui a algum tempo e, por enquanto, as visitas aos recém-nascidos ocorrem somente por meio da internet. É o caso de Paula Weslânnya, de 23 anos, também de Alagoas, mãe de Laura Manuela, que nasceu no último dia 10 de abril.


Neste domingo, quando a filha completa 1 mês de vida e Paula celebra seu primeiro Dia das Mães, a jovem lamenta não poder comemorar como havia planejado e fala em solidão.


“Está sendo preocupante. Você não sabe quando isso vai acabar, quando eu vou poder apresentar minha filha para a família, para o resto do mundo. Está sendo um pouco solitário. A gente não tá tendo visita”, conta. “Fico triste por não viver esse momento de uma maneira mais completa, poder sair, comemorar com minha família. Será um Dia das Mães totalmente diferente”, lamenta a jovem.


Paula e o marido também optaram por mudar os planos do nascimento da pequena Laura, com o intuito de minimizar riscos e evitar a tensão das maternidades neste momento de pandemia. A escolha foi pelo parto domiciliar.


“Eu e meu esposo sentamos, conversamos com a equipe e decidimos que seria melhor um parto domiciliar. A principal razão foi a pandemia. Ela ainda está com a imunidade baixa, precisa ficar protegida. Eu espero que as coisas melhorem, que ela possa logo sair, conhecer a família, ver pessoas, viver em um mundo melhor”, finaliza a mãe.


TENSÃO E GRATIDÃO

“Eu estava com tudo programado para ser a maior festa, pois ele foi muito desejado e esperado por todos da família e amigos. Mas Benício nasceu no dia do primeiro decreto do governo para a quarentena, então não tivemos nenhuma visita”, relata Alderita Alcântara Bittencourt, que aos 43 anos trouxe Benício ao mundo. De acordo com ela, os primeiros dias como mãe foram assustadores, já que ela teve que se adaptar à maternidade e também à realidade com o novo coronavírus. “Só tínhamos consultas online, foi difícil e tenso, mas conseguimos superar. Desde os primeiros dias seguimos à risca tudo o que foi recomendado”, diz.


Segundo Alderita, o clima na maternidade era tenso, com os profissionais de saúde extremamente paramentados e ainda assimilando os protocolos de segurança para evitar a contaminação por coronavírus.


“O clima era de total apreensão. Ao mesmo tempo sentimos muita gratidão a Deus pelo presente que estávamos ganhando. Até hoje o Beni só conhece meus pais, eu e meu esposo, pois estamos juntos no isolamento social”, conta.


A mamãe Fernanda também diz que o clima na maternidade era angustiante. “Eu não saí do quarto para nada, a não ser para ir embora da maternidade. Os profissionais já estavam bastante apreensivos, alguns chegavam a relatar a angústia de trabalhar neste cenário e teve uma enfermeira que ficou na minha lembrança, pois ela me relatou que ‘o tempo que ela passava em nosso quarto em atendimento era muito gratificante’, pois eu e meu marido somos pessoas muito alegres e o clima na maternidade já estava bastante tenso.”


O nascimento de uma criança, mesmo que sofrido, mesmo que em meio a uma pandemia e carregado de incertezas, é cercado também de uma alegria inexplicável e de um amor incondicional. É assim que essas mães definem o momento exato em que olharam para seus filhos, tão pequenos para um mundo tão grande quanto problemático. Todos esses sentimentos renovam a fé dessas mães em um futuro melhor.


“Espero um mundo melhor, com mais empatia pelo próximo, com mais amor. Que ele possa no futuro dizer que nasceu em meio a essa pandemia e passou ileso. É um dia de muita gratidão a Deus pelo presente que ele me deu, e por poder estar junto de minha mãe também. Esse é o meu primeiro dia das mães e mesmo com tudo que está acontecendo ele será especial e inesquecível”, diz Alderita.


“Meu filho vai saber de tudo o que se passava na época em que ele nasceu. E eu só peço a Deus que o abençoe e que ele tenha a certeza que tudo o que fizemos por ele foi buscando o melhor. Ser mãe neste período é um misto, de alegria e dor! Apesar de tudo, é um momento único que estou vivendo depois de tamanha espera. É mágico poder comemorar este dia com meu filho nos braços e, apesar de toda apreensão que vivemos, sou grata à Deus pela graça concedida. Ninguém passará dessa fase como entrou. É um período para aprender sobre compaixão, sobre coletividade, sobre cuidado e acima de tudo amor. Este é apenas o primeiro [Dia das Mães] de muitos que ainda estão por vir, e espero que os próximos sejam comemorados com sorrisos expostos e abraços apertados. Desejo à todas as mamães, um dia repleto de muitas alegrias!!”, conclui Fernanda Trani.

Alderita Bittencourt diz que espera que o filho viva em um mundo com mais empatia
Alderita Bittencourt diz que espera que o filho viva em um mundo com mais empatia - Foto: Cortesia
 

Fernanda Trani comemora a chegada de Gabriel e diz acreditar em um futuro melhor
Fernanda Trani comemora a chegada de Gabriel e diz acreditar em um futuro melhor - Foto: Cortesia
 


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