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MODA PARA TRANSFORMAR

Com edição digital e implementação de cota racial, 25ª São Paulo Fashion Week será lembrada por impulsionar discussões acerca do papel social e o futuro da moda

Por MAYLSON HONORATO COM AGÊNCIAS | Edição do dia 14/11/2020

Matéria atualizada em 11/11/2020 às 22h07

A semana de moda mais importante da indústria brasileira e a maior da América Latina encerrou a edição histórica de 2020, com destaques que certamente serão lembrados nos próximos anos e até nas próximas décadas. Na 25ª edição da São Paulo Fashion Week não faltou engajamento, discurso político, ideias inovadoras, máscaras compondo looks e, claro, uma lista gigante de tendências, novidades e estilos.

Se a pandemia fez da SPFW 25 uma edição completamente digital, o que não faltou foi uma busca incessante - do eventos e das grifes - por aproximar o público da moda. O grande destaque da semana foi mesmo o ativismo e a humanização da indústria - que é feita de pessoas para pessoas.

Apesar de online, os designers nunca estiveram tão próximos do público como na edição de 2020 - nada de editora de moda filtrando conteúdo, adiantando detalhes com exclusividade, nada de conversa de bastidor. As conversas e a apresentação das coleções ocorreram ali, na frente das milhares de pessoas que acompanharam o evento de suas casas, em tempo real, pelo YouTube.

Para deixar isso fixado: além do esforço das 36 grifes que compuseram a semana de moda, o esforço do próprio evento para celebrar seus 25 anos revolucionando mais uma vez a indústria é o que será lembrado para sempre. Explico: a parceria com o coletivo Pretos na Moda e a criação do tratado que estabelece que metade do casting dos desfiles precisa ser composto por pessoas negras, indígenas e asiáticas, não somente promove mais inclusão, mas funcionará como exemplo para outros eventos e projetos.

Além desse marco, a preocupação com questões ambientais e as conversas acerca de uma moda mais sustentável, mais humana e mais conectada fizeram do evento um lugar acolhedor, principalmente em um ano de tantos desafios e distâncias.

MAS VAMOS ÀS PASSARELAS

Seis marcas estrearam na SPFW este ano, mas quem assina algumas delas são veteranos. Alexandre Herchcovitch, ao lado de Fábio Souza, colocou a ALG, o braço mais acessível e jovem da À La Garçonne, na passarela. Rita Comparato, que não desfilava desde 2013, assinou a direção da estreante Irrita. Além dessas duas, as etiquetas Freiheit, Misci, Martins e Renata Buzzo completam as marcas que estrearam no evento. Chegaram fazendo história.

O distanciamento e os meses de solidão, decorrentes da pandemia do novo coronavírus, obviamente refletiram nas coleções. Enquanto alguns designers conseguiram olhar para fora e apostaram em brilho e volumes, outros olharam para dentro, com composições monocromáticas, listras, formas fechadas e provocações até filosóficas.

Dessa variedade de provocações, conseguimos pincelar tendências para o verão 2021.

CORES FORTES

Mesmo em uma temporada mais sóbria, as tonalidades vibrantes são apostas certas para este verão. Laranja, vermelho, rosa, roxo e azul são algumas dessas cores que podem sair das passarelas para os looks urbanos.

MATERIAIS NATURAIS E APLICAÇÕES

Já se foi o tempo em que o artesanato era considerado algo distante da moda de alto padrão. Materiais naturais, crochê e aplicações apareceram em diversas coleções, impulsionando isso como tendência para 2021. O destaque vai para o crochê, que será usado tanto para acessórios quanto para vestidos e até para peças íntimas.

Peças pintadas à mão e patchwork, que já estava mesmo ganhando espaço, também são apostas certeiras para esta temporada.

VOLTA DAS MANGAS

Alguém pode dizer que isso não é novo. E não é. Aparentemente, a cada temporada as mangas volumosas ficam mais… volumosas. Essa segue sendo a aposta: mangas imponentes, impactantes e que protagonizam o look seguirão em alta.

MANGAS CRESCEM E MEIAS SOBEM

Esse é um dos clássicos encontros das ruas com as passarelas. As meias já estavam mesmo ganhando mais espaço nos looks, principalmente com o crescimento do streetwear e do estilo esportivo que tem conquistado o público. Agora, depois da pandemia, a meia passa de um detalhe no visual para o status de importante, de peça que expressa.

OVERSIZED

Moda é espelho. E se as coleções refletem angústias, sentimentos e necessidades humanas, não poderia faltar algo que todos sentiram falta durante a quarentena: roupas que envolvem o corpo, grandes, confortáveis.

A tendência é que formas fluidas e roupas gigantes tenham cada vez mais espaço nos looks, visando principalmente o conforto. Obviamente, não faltou criatividade ao juntar essa tendência com estilos dignos da SPFW.

THE END

Além de criações incríveis e designers despidos das barreiras do glamour, a edição 25 da São Paulo Fashion Week celebrou a capacidade humana de colaborar para superar momentos difíceis. Momentos como a própria pandemia, que poderia ter cancelado o evento, mas também momentos históricos que reverberam até hoje.

Além de o evento dar um passo gigante para a inclusão, Ronaldo Fraga protagonizou um momento emocionante, com um périplo da estilista Zuzu Angel, que começou com a busca do filho morto pela ditadura militar e culminou em sua morte pelas mãos dos militares. Grande parte do vídeo simula uma conversa entre ele e a colega de profissão que há 20 anos lhe inspirou em outro desfile.

No papo imaginário, regado a vinho em um apartamento pequeno no qual se via da janela prédios pegando fogo, Fraga mostra sua indignação com a chegada de militares ao poder - do setor da moda, ele talvez seja o que mais vai a público expor sua posição contrária ao governo de Jair Bolsonaro. Uma modelo criada em computador, construída para representar os traços, os cabelos fartos e a silhueta de Zuzu Angel passeou sozinha em volta da mesa, coberta da chita que a estilista tanto gostava, exibindo a nova coleção de roupas.

Esse momento também não será esquecido.

* Sob supervisão da editoria da revista Maré

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