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ADOTANDO PELOS MOTIVOS CERTOS

Pandemia aumenta busca por adoção de animais, mas especialista alerta que é preciso pensar a longo prazo antes de decidir

Por DA EDITORIA DA REVISTA MARÉ | Edição do dia 20/02/2021

Matéria atualizada em 17/02/2021 às 21h00

O mundo contemporâneo e as peculiaridades das relações sociais têm, ao longo dos anos, levado milhares de pessoas a recorrerem à companhia de cães e gatos. Com a solidão provocada pelo isolamento social, a busca por construir uma relação com esses bichinhos cresceu consideravelmente. Quem adotou um pet nos últimos meses garante que a vida mudou e que a qualidade de vida melhorou. Já é comprovado que, além de melhores amigos, os pets podem contribuir no combate à ansiedade, estresse, sensação de solidão, e estudos recentes até demonstraram o quanto a interação com os animais pode ser benéfica para a saúde, equilibrando, por exemplo, a pressão arterial. O aumento da busca por adoção na internet, que dobrou nos últimos meses, acendeu alguns alertas sobre o possível abandono pós-pandemia, mas também é acompanhado por histórias inspiradoras ou, pelo menos, bem-humoradas. Uma dessas histórias é a de Alexandre Barbosa, de 24 anos, que nos últimos meses adotou - não 1, mas 2 gatinhos. Ele, que até pouco tempo era avesso à ideia de dividir a casa com um pet, agora curte dias de isolamento, mas na boa companhia de Bento e Capitu, seus novos xodós. “Eu sempre tive vontade de adotar um bichinho e esse desejo se intensificou na pandemia, que acabou amplificando a sensação de solidão”, conta o “pai de pet”. Alexandre diz que o processo para a adoção foi cercado por dúvidas, medos, mas que amigos, profissionais e a internet ajudaram a receber os felinos da melhor maneira possível. “Eu me mudei recentemente para uma casa, então percebi que era a hora, a ideia ressurgiu. Eu vi um post de uma instituição informal, na parte alta de Maceió, que resgata animais na rua e procura cuidados e lares responsáveis”, diz o rapaz, acrescentando que Bento foi o primeiro a ganhar um lar. “Eu vi a foto do Bento, estava junto de outros porque o resgate incluiu vários filhotes que foram abandonados debaixo de um carro. A moça que resgatou eles estava cuidando dos filhotes, eles estavam bem fraquinhos. Fui olhando para eles e quando vi o Bento eu disse: é esse!” Essa história de amor à primeira vista ocorreu há quatro meses e, há menos de um mês, a família de Alexandre cresceu ainda mais. “Uma amiga, Dayane Laet, resgatou uma gata que estava prenha. Aí ela começou a saga para encontrar bons lares para os seis filhotes. Até pouco tempo atrás, ela ainda estava com todos eles”, relata. “Nessa busca, ela, que tem uma rotina super apertada, postou uma foto com todos os filhotes e colocou um nome em cada um. Eu já tinha o Bento, mas uma das gatas se chamava Capitu, então senti que eu precisava adotar ela também. Me apaixonei totalmente por essa bolinha fofa.” Convencido pelos olhinhos de cigana dissimulada da gata Capitu e pelo jeito doce de Bento, Alexandre diz que começou uma nova rotina em casa após a adoção dos filhotes. “Acho que a primeira coisa que muda é a forma como você percebe os espaços, como passa a dar atenção para todos os espaços da casa, do lugar onde mora, se preocupa mais com organização, com a segurança dos pets. Com eles eu preciso me preocupar em deixar as coisas sempre limpas e arrumadas, é uma responsabilidade, tem vacinação, tem uma rotina que precisa incluir eles, da escolha da ração até as pequenas coisas. Você precisa entender que está dividindo o espaço com um ser que depende de você. Por mais que os gatos sejam meio que independentes, eles dependem de mim para muita coisa. Se eu preciso viajar, antes eu podia passar quantos dias eu quisesse fora, agora não, preciso pensar neles, na comida, no cuidado, em alguém para olhar”, explica.

RESPONSABILIDADES De acordo com a médica veterinária Érica Versiani, as mudanças nas dinâmicas das casas e as responsabilidades ao adotar um bichinho de estimação são verdadeiras preocupações de veterinários e protetores de animais, que perceberam o aumento da busca por pets durante a pandemia. “Cães e gatos são vidas e não um brinquedo ou uma distração. Junto com a alegria da adoção, vêm também gastos e trabalho. Um animal precisa ser vacinado, vermifugado, precisa de exames de rotina, assim como nós, seres humanos! Além de todos os outros cuidados, como alimentação de qualidade, passeios, atenção. É maravilhoso esse [aumento] crescente na adoção de animais de companhia, tanto para os animais, que ganham um lar, quanto para os humanos adotantes, que ganham uma alegria”, diz a profissional, ao alertar que tutores devem pensar em longo prazo, para além do período de isolamento social. “Uma vida inclui a fofura do filhote, a companhia e o amor incondicional de um bichinho, mas inclui também o xixi no lugar errado, a adaptação do animal com o novo ambiente, as comorbidades da velhice, entre outros. Uma adoção deve ser muito bem pensada. Ao adotar, seu coração tem de estar aberto para o que vier. E virão alegrias, tristezas, trabalho, muito trabalho. Deve-se estar ciente de que a adoção é a chegada de um novo integrante para a família e quando passar a época de isolamento e os tutores voltarem às suas vidas rotineiras, o animal adotado continuará sendo um membro daquela família. Você não devolve uma vida para o abrigo ou para a rua”, completa Érica Versiani. Alexandre Barbosa diz que essa reflexão foi fundamental na hora de decidir abrir as portas de casa para Bento e Capitu. “Eu aconselharia a adotar, desde que as pessoas estejam dispostas a cuidar dos animais. Há uma relação para construir, você ganha muita coisa, mas precisa retribuir. Pode ser um gato, cachorro, qualquer outro, um bicho de estimação não é uma planta de plástico. É preciso entender que, como em qualquer relação, é uma troca, há responsabilidades. Tem a parte boa, mas tem a parte que é trabalho”, alerta. “Nesse cenário, quando estamos em casa, parece propício adotar. A solidão ajuda a reforçar isso. Mas isso é um problema. O cenário não pode ser uma desculpa. Você precisa entender que quando as coisas voltarem à normalidade, aquela vida pela qual você é responsável, vai continuar ali. Já tem muitos animais nos abrigos, nas ruas, a demanda é alta, a busca por adoção já é muito alta. Então, só adote se você tiver certeza de que vai se comprometer com aquela vida”, finaliza Alexandre Barbosa.

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