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DROGA ELETRÔNICA?

Consumo de cigarros entre fumantes cresce 40% na pandemia e adesão de jovens a cigarros eletrônicos preocupa especialistas, que temem aumento de casos de câncer nos próximos 20 anos

Por MAYLSON HONORATO REPÓRTER | Edição do dia 28/08/2021

Matéria atualizada em 25/08/2021 às 21h40

Uma década atrás, 20% da população brasileira acima de 18 anos era tabagista. Esse percentual, de acordo com o Instituto Nacional do Câncer, caiu para metade este ano, o que representa um avanço em relação ao passado, mas um novo desafio para o presente, tendo em vista que mais de 20 milhões de pessoas ainda usam cigarros. Neste domingo (29), o Brasil comemora o Dia Nacional de Combate ao Fumo, mas as políticas públicas de prevenção enfrentam um inimigo inesperado: o cigarro eletrônico.

Segundo o Ibope Inteligência, o número de pessoas que usam cigarro eletrônico no Brasil, em apenas um ano, dobrou, saltando de 0,3% da população para 0,6%. São cerca de 600 mil usuários brasileiros da tecnologia que, dizem os especialistas, é capaz de causar tanto dano físico e psicológico quanto o cigarro tradicional.

A comercialização, importação e propaganda de todos os tipos de dispositivos eletrônicos para fumar são proibidas no Brasil. Isso, no entanto, não impediu o jovem Rafael da Silva Vieira, de 19 anos, de comprar, não apenas um, mas 2 dispositivos. De acordo com o estudante, a compra foi feita em uma conveniência localizada em um supermercado, no bairro Ponta Verde, em Maceió. “Comprei um no ano passado, tentando parar de fumar, diminuir a quantidade, mas acabou que agora só fumo o vape [como são chamados alguns dispositivos]”.

De acordo com a oncologista Clarissa Mathias, a proibição da venda implica em um problema que preocupa os especialistas Como não há regulação, não dá para saber o que, de fato, as pessoas estão aspirando quando usam esse produtos ilegais.

“Outro importante ponto é que esse tipo de vício tem atraído principalmente os adolescentes, pelo formato, pela novidade e pela falta de informação também sobre o impacto nocivo deles. Os produtores investem em um design moderno, com cara de aparelho eletrônico, para atrair essa geração que, até então, já tinha quase que abandonado o cigarro”, explica.

A pandemia da Covid-19 vem deixando os especialistas em estado de alerta. Ansiedade, solidão provocada pelo isolamento social e o medo da doença têm levado os tabagistas a descontarem os sentimentos de incerteza no cigarro. Segundo pesquisa da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), os tabagistas aumentaram o número de cigarros consumidos diariamente em até 40%. E isso também pode estar acontecendo com os consumidores de cigarro eletrônico, acreditam especialistas.

“Não temos como saber quais serão as consequências do consumo desse tipo de cigarro a médio e longo prazos. Teremos que esperar talvez 20 anos para medir isso, o que pode ter consequências para toda uma geração, já muito afetada por um evento de grande proporção, que foi a pandemia, que deixou muita gente mais ansiosa e mais angustiada e que pode buscar esse hábito como válvula de escape”, ressalta Clarissa.

Rafael Vieira diz que conhece os riscos e que sente que, ao aspirar o cigarro eletrônico, a “agressão” ao aparelho respiratório é maior. “Eu acho, né? Eu sinto que ele é mais forte, no começo até doía um pouco”. O jovem também explica que seus amigos tiveram influência na mudança do tipo de cigarro. “Muitos dos meus amigos e amigas fumam, virou modinha de novo. Eu acho triste. Eu sei que é um vício e quero parar”, afirma. “Como alguns reclamam do cheiro forte do cigarro normal, mudei também para ficar mais próximo dos meus amigos”, continua.

O cigarro eletrônico vaporiza um líquido que contém uma grande quantidade de nicotina e, embora não existam ainda estudos definitivos que indiquem o impacto no desenvolvimento de cânceres, os dispositivos eletrônicos possuem sim elementos que podem ser altamente prejudiciais, mesmo não contendo tabaco em sua composição. O crescimento desse consumo pode representar um retrocesso para o Brasil, que é reconhecido pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como um exemplo no combate ao tabagismo.

“A nicotina pode ser consumida com combustão e produção de fumaça - caso de cigarros, charuto, narguilé - ou sem combustão e produção de fumaça, como acontece em situações de uso de rapé e cigarros eletrônicos sem tabaco ou com tabaco modificado para ser aquecido. Por isso devemos estar atentos ao estímulo da conscientização dos riscos de todo e qualquer tipo de fumo”, comenta o oncologista Carlos Gil Ferreira, líder de tumores torácicos do Grupo Oncoclínicas.


TABAGISMO É A PRINCIPAL CAUSA DE CâNCER

O tabagismo continua sendo o maior responsável pelo câncer de pulmão em todo o mundo. Aliás, não apenas deste tipo de tumor: em 2017, conforme dados do INCA, 73.500 pessoas foram diagnosticadas com algum tipo de câncer provocado pelo tabagismo no país e 428 pessoas morrem diariamente no país por conta dele. A entidade aponta ainda que mais de 156 mil mortes poderiam ser evitadas anualmente se o tabaco fosse evitado.

Em 79% dos casos de câncer de pulmão, por exemplo, os pacientes eram fumantes, ou ex-fumantes. Apenas 21% nunca tiveram contato com o tabaco.

O hábito de fumar também contribui para o aumento no risco de ocorrência de ao menos outros 12 tipos de câncer: bexiga, pâncreas, fígado, do colo do útero, esôfago, rim e ureter, laringe (cordas vocais), na cavidade oral (boca), faringe (pescoço), estômago e cólon, leucemia mielóide aguda. Adicionalmente, o tabagismo é um dos hábitos relacionados a formas mais graves de infecção pelo novo coronavírus.


PARE DE FUMAR

Com foco no público jovem, o Grupo Oncoclínicas lança neste mês nas redes sociais a campanha “Desafio 21 Dias Sem Cigarro”, voltada ao incentivo ao abandono do vício no fumo. A cada dia, é sugerida uma nova meta a ser cumprida. Essas atividades procuram diminuir a sensação de ansiedade e a própria fissura física que vem com o consumo de cigarro e dispositivos eletrônicos de vape.

“Parar de fumar não é um ato isolado na vida. A sensação de perda é muito grande, e o fumante deve encarar a cessação como uma oportunidade de fazer um balanço e modificar seus hábitos e estilo de vida. Para vencer a dependência psíquica, a dependência física e os condicionamentos é preciso ter muita força de vontade e contar com o apoio de profissionais de saúde, amigos e familiares. A partir desta mobilização, temos o objetivo de incentivar esse movimento em prol da saúde e da vida”, finaliza Clarissa Mathias.

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