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Um jeito nordestino de vestir

Designers e pesquisadores discutem como o Nordeste é traduzido na moda e como o cangaço tem influenciado o arsenal imagético ao redor da região

Por MAYLSON HONORATO EDITOR | Edição do dia 18/09/2021

Matéria atualizada em 15/09/2021 às 21h04

O Nordeste é feito de Nordestes. É assim nos sotaques, nas festas populares, nas gírias e até na maneira como vestimos ou assimilamos a moda. Em busca de uma estética nordestina e provocados pela capa digital da Vogue de setembro, que colocou a ex-BBB Juliette vestida como uma cangaceira contemporânea, os designers de moda Antônio Castro e Pollyanna Isbelo Melo embarcaram em uma discussão ao redor dos signos visuais que traduzem o Nordeste nas ruas, nas passarelas ou nas capas de revistas.

O que você pensa ao ouvir a palavra Nordeste? Podem vir à mente imagens diversas, afinal, é na diversidade que o Nordeste se faz. Mas algumas coisas estão sempre por aí: cangaço, sertão, folguedos, etc. e etc. O fato é que o caldeirão cultural que é o Brasil fica ainda mais evidente quando olhamos mais atentamente para a região.

“Acho que muito do que a gente entende enquanto estética nordestina tá ligado a um olhar muito regionalizado e a uma visão bastante estereotipada. Então, quando a gente pensa em estética nordestina relacionada à moda, isso tá, de fato, muito ligado ao que o artesanato nordestino produz”, diz o alagoano Antônio Castro.

Castro fundou uma marca de roupas chamada Foz, que faz referência ao Rio São Francisco, que é fruto de uma parceria com bordadeiras. A ideia da marca é traduzir nas peças o encontro entre o artesanato e a moda, baseando-se na estética e nas técnicas catalogadas pelo designer durante suas andanças pelas regiões ribeirinhas do Nordeste.

“É até redundante. Se você fala em moda nordestina, as pessoas logo pensam no artesanato do couro, na renda filé, nesses trabalhos que estão mais na superfície, ou seja, mais acessíveis ao olhar de fora”, defende. “A renda, a saia de praia, é a bolsa de praia, é a palha, a cestaria, enfim, fica muito nesse lugar raso e que não leva em consideração as complexidades que uma estética pode ter e que existem muitas estéticas dentro do Nordeste, porque o Nordeste é feito de muitas culturas”, continua.

Ele explica que esse arsenal imagético do que se entende como estética nordestina na moda é uma polêmica antiga e amplamente discutida no meio acadêmico. Segundo ele, a pergunta “o que é a identidade nordestina na moda?” pode facilmente virar “qual a estética brasileira na moda?”.

“A gente tem uma cara da moda americana, a gente tem uma cara da moda parisiense, a gente tem uma cara da moda belga, a gente tem históricos na produção de moda que construíram essa coisa pré-concebida do que é a identidade de cada um desses lugares. E falta isso no Nordeste e meio que falta isso no Brasil. Falta as pessoas enxergarem isso, falta o Brasil discutir qual é de fato sua identidade”, completa.


O CANGAÇO

Aquela foto macabra e famosa com as cabeças de cangaceiros empilhadas e os seus pertences organizados numa espécie de pirâmide traz um detalhe interessante para prosseguir com essa conversa sobre estética nordestina: há duas máquinas de costura na fotografia icônica.

A máquina não era um acessório irrisório, pelo contrário, à época, tinha a importância de uma televisão. Ainda mais as que aparecem na foto, do modelo Singer. Ela era responsável pelas vestes que viraram símbolo e que auxiliavam na sobrevivência dos bandos em meio aos sertões, tão belos quanto cruéis.

Para entender como essas vestes, a estética da resistência, se tornou um símbolo poderoso e que atravessou gerações, basta ver essa fotografia: as máquinas de costura não estão lá por acaso.

“Observemos os últimos 85 anos. As narrativas da mídia, nos mais diversos segmentos, auxiliaram na construção de um imaginário coletivo nordestino, sempre a partir da estética do cangaço. O grupo chefiado por Lampião gerou um novo estilo estético, que o distinguia e distingue até hoje. Foi criada uma indumentária singular; trajes ricamente adornados e bordados”, explica a designer de moda, pesquisadora e professora Pollyanna Isbelo Melo, do curso de Produção de Moda da Escola Técnica de Artes da Universidade Federal de Alagoas (ETA/Ufal).

Para Isbelo, o tempo se encarregou de firmar essa iconografia como identidade e traduzir o homem e a mulher do Nordeste, suas lutas diárias, a convivência com as adversidades e com a natureza e a beleza. “Essa é a estética nordestina, o tons de marrom da terra ressecada, do couro e da madeira, que aliadas à cultura visual do cangaço vêm desenvolvendo narrativas diversas, pop e por vezes estereotipadas dessa estética regionalista”, explana.


A CAPA DA JULIETTE

As capas de Juliette para a Vogue de setembro são tão fortes que evocaram a volta dessa discussão no meio criativo e acadêmico. A advogada de 31 anos, que venceu o Big Brother Brasil, estampou a edição mais importante do ano para a edição brasileira da revista especializada.

São três capas e três imagens bem distintas, mas percebe-se o regionalismo em pelo menos duas delas.

A capa que traz o vestuário preto: “Percebo a referência à Maria Bonita, ressignificada como uma lady minimalista que lembra uma atriz dos clássicos filmes hollywoodianos em P & B. A silhueta em destaque revela o Nordeste pelo acessório da cabeça - o chapéu do cangaço é percebido, mesmo sem os adornos característicos, as estrelas e moedas usadas como adorno. A forma revelada através da silhueta é tão simbólica que imediatamente faz essa ligação com o Nordeste, no entanto, a referência é percebida apenas por quem conhece esse repertório das formas Nordestinas”, analisa Pollyanna Isbelo.

A segunda capa: “São as referências regionais de forma mais explícita, pelo uso das cores, já que os tons terrosos mantêm relação direta com o Nordeste. O ‘marrom’ é usado para representar a região, encontrado em inúmeras produções, especialmente as cinematográficas. Além das cores, os materiais naturais, cores formas e texturas naturais são indícios do regionalismo”, continua.

“A terceira capa traz a relação com a estação da primavera - a cabeça feita em flores anunciando a entrada da nova estação - os florais são comuns nas edições de setembro”, finaliza a professora.

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