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UMA GERAÇÃO SOLITÁRIA

IBGE explicita solidão entre adolescentes ao divulgar pesquisa sobre saúde escolar; 5% dos estudantes de Alagoas afirmam não ter amigos próximos

Por MAYLSON HONORATO - EDITOR DA REVISTA MARÉ | Edição do dia 23/07/2022

Matéria atualizada em 20/07/2022 às 22h36

Ao menos 5% dos adolescentes de Alagoas não possuem amigos próximos. É isso o que revela a Pesquisa Nacional sobre Saúde Escolar (Pense), divulgada recentemente pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Empatado com o Mato Grosso do Sul, Alagoas é o estado em que mais pessoas entre 13 e 17 anos se consideram solitárias.

O problema atinge principalmente a capital. 4,6% dos adolescentes de Maceió afirmaram não ter amigos. Assim como Alagoas, a cidade está acima das médias nacional (4%) e do Nordeste (4,1%). A pesquisa faz um panorama da saúde dos jovens em idade escolar, com dados sobre alunos das redes pública e privada. Ela é realizada diretamente com os estudantes, dando voz a essa parcela da população.

Ao contrário do que se possa imaginar, a pesquisa não se refere ao período pós-pandemia que vivemos, visto que o estudo foi realizado em 2019. Especialistas em psicologia e educação temem que o distanciamento, necessário na fase crítica da pandemia de Covid-19, possa, inclusive, agravar esse quadro de isolamento social entre adolescentes.

De Maceió e prestes a concluir o ensino médio, J.V.P, de 17 anos, está no limite da idade pesquisada pelo IBGE nesse caso. No entanto, ele conta que a pandemia o afastou ainda mais dos poucos amigos que tinha.

“Acho que as pessoas estão mais desligadas, não tem mais essa de amigos. Na escola, é cada um por si. Em 2019, eu tinha 14 anos e era tudo muito pior. Hoje, não considero que tenho amigos. Eu tinha dois amigos, mas a gente não se fala mais, eles se mudaram para a parte baixa antes da pandemia e isso dificulta muito”, afirma o rapaz, que reside na parte alta de Maceió.

O adolescente aproveita para definir o que considera um amigo. “É uma pessoa de confiança, que não se aproveita de você, dos seus defeitos, que está ali pra sempre, pra dar apoio. Acho que é isso. E pra receber apoio também, que você considera como irmão”, conclui.

Para a psicóloga escolar e professora de psicologia Yana Marques, o relacionamento com a tecnologia e com a internet, acentuado na pandemia, contribuiu para um maior afastamento dos adolescentes entre si. Isso, segundo ela, poderá ser visto em um próximo estudo.

“A maioria dos fatores que estão contribuindo diretamente para esse distanciamento tem uma relação estreita com a pandemia”, afirma Yana Marques. “O período em que os adolescentes ficaram isolados propiciou o uso contínuo da tecnologia, jogos eletrônicos, pouco contato com a família (exceto os que moravam no mesmo local), com os amigos e com a sociedade de modo geral”, analisa.

“Isso contribuiu para que hoje eles tenham dificuldade em criar laços novamente! Tirá-los do mundo digital e trazê-los para o mundo real tem sido uma tarefa extremamente difícil”, pontua a especialista, que também é Mestre em Sociedade, Tecnologia e Políticas Públicas.

Para ela, essa “falta de amigos próximos” pode impactar negativamente o desenvolvimento dos adolescentes.

“O ser humano tem uma necessidade inata de criar vínculos, principalmente nesse período da adolescência, em que as identificações com o outro e a participação de grupos contribui para o processo de formação da identidade”, explica Yana.

Impacto da pandemia

S.H.V, de 13 anos, conta que a pandemia foi uma experiência solitária. Para a garota, que entrou na adolescência em meio às restrições impostas pela crise sanitária, fazer amigos é um desafio ainda hoje. “As professoras ajudam, mostram como a gente pode conversar, brincar. Mas eu acho que eu só tenho duas ou três amigas, assim, no máximo”, explicita.

A mãe dela, a empreendedora Vitória Holanda, diz que as dificuldades da filha eram um temor desde o começo da pandemia, quando foram anunciados o distanciamento social e a suspensão das aulas.

“Nós ficamos sem saber o que fazer, pensamos muito em como ajudá-la nesse momento de retorno. Mas é difícil. A gente tem um tato, né? Uma fórmula, um jeito de se aproximar das pessoas e fazer amizades, é uma coisa que a gente desenvolve, acho, justamente nesse momento da vida”, afirma Vitória.

Apesar de ainda não haver dados sobre as consequências sociais do distanciamento da pandemia de Covid-19, Yana Marques mostra que a dificuldade dos adolescentes para interagir é uma preocupação para os especialistas, algo visto empiricamente no dia a dia escolar. Em relação a isso, a escola pode ajudar.

“A escola é um dos ambientes apropriados para se trabalhar em grupos. Dentro do espaço escolar, conseguimos fazer algumas intervenções em sala de aula, através de dinâmicas de grupo com jogos interativos, além rodas de conversa com psicoeducação”, explica.

Segundo ela, a família também pode ajudar os adolescentes nesses casos.

“A família pode contribuir convidando o adolescente para momentos de conversas, jogos, saídas para ambientes de lazer, assistindo filmes e séries juntos, lendo e trocando livros”, finaliza a psicóloga.

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