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Maceió,
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Opinião

1912: A GUERRA CONTRA OS XANG�S ALAGOANOS

O tratamento infligido ao negro alforriado, livre em Alagoas, possui características e comportamentos diferentes no século 19, 20 e 21, mas também, possui um núcleo, um dispositivo que permite a interligação de dois mundos, que não poderiam ser conectados

Por | Edição do dia 01/02/2012

Matéria atualizada em 01/02/2012 às 00h00

O tratamento infligido ao negro alforriado, livre em Alagoas, possui características e comportamentos diferentes no século 19, 20 e 21, mas também, possui um núcleo, um dispositivo que permite a interligação de dois mundos, que não poderiam ser conectados diretamente; este limite comum permite trocas entre eles, algumas positivas e outras intolerantes. O conjunto de condições naturais, sociais, culturais e políticas em que está situado o escravismo no Brasil tem sua base na economia, e o processo da libertação, também, integrou um substrato econômico. O tratamento ao negro será, ao longo dos séculos, sempre duro, e Alagoas participará ativamente do fluxo e refluxo do escravismo brasileiro. A proibição ao tráfico dos escravos negros, com a promulgação da lei Eusébio de Queiroz em 1850, diminui o número de contrabandistas em Alagoas, mas, a geografia do tráfico negreiro, oriunda d’África, só terminará em 1855. Sendo que o comércio interno, sobretudo em Penedo e Maceió, é intensificado. Há exportação, venda de escravos em grande quantidade, embarcando nos portos de Penedo para Bahia e, posteriormente, Rio de Janeiro, e de Maceió, via Pernambuco, para o Rio de Janeiro. A cidade de Maceió, no século 19, era constituída por uma grandiosa comunidade de negros, com forte interação religiosa, configurando uma das mais importantes, se não a mais importante, comunidade religiosa afro-brasileira. A influência crescente dos negros no dia-a-dia de uma sociedade beata, apresentando metástases de uma luta social contínua, suscitou um movimento de paulatina intolerância à participação da comunidade negra no cotidiano da cidade. A exemplo disso, o jornal Diário das Alagoas, de 27 de julho de 1859, noticia que a Câmara Municipal de Maceió criará uma postura impedindo severas penas aos africanos que mercadejassem gêneros de primeira necessidade; citando que os negros monopolizavam o comércio de gêneros alimentícios e era necessário acabar com o monopólio. A hagiomaquia dos xangôs alagoanos, em primeiro de fevereiro de 1912 foi leitmotiv o para a denominada “Operação Quebra-quebra da soberania”, que é deflagrada pela Liga Republicana Combatente, após as evidências de que o Governador Euclides Malta estava solicitando os préstimos da mais importante e famosa mãe de santo das Alagoas, Tia Marcelina, da Costa d’África – Euclides foi denominado o papa do xangô alagoano – o Deus Leba ou Legba. A Liga Republicana Combatente, em homenagem a Miguel Omena, era uma organização proletária e carnavalesca presidida por Manoel Luiz da Paz, reformado lutador na batalha dos Canudos, tendo integrantes da direção do partido democrático, vinculados ao líder político José Fernandes de Barros Lima. Com sede social à Rua Pernambuco Novo, 86, atual Teixeira Bastos, e em época primeira na Rua do Supapo, 311. Estava situada em região perto de um dos importantes terreiros do xangô alagoano. Na noite de primeiro de fevereiro de 1912, quinta-feira, às 22h30m, a operação foi planejada por cidadãos que residiam, na grande parte, nas vizinhanças dos terreiros – aproveitam a festa de Oxum e Imaculada Conceição que era festejada no período de 23 de janeiro a 02 de fevereiro; O cortejo teve similitude com uma prévia dos carnavalescos dos “morcegos”. A simulada prévia adentrou ao terreiro do conhecido jogador de maracatu João Catarina – o belo maracatu alagoano, brincado no pátio e em frente ao cruzeiro da Igreja do Rosário, e prosseguiu para os outros como Tia Marcelina, Chico Foquinho, mestre Félix, Tio Salu, Maria da Cruz, João Funfun, Manuel Guleiju, Pai Aurélio, Adrião e Adolfo. Perfazendo um total de 30 terreiros invadidos em Maceió, continuando em dias subsequentes para Alagoas, atual Marechal Deodoro, Anadia e Atalaia. Atualmente os objetos, oriundos do quebra, após permanecerem por 38 anos no Museu da Sociedade Perseverança e Auxílio, está sob guarda do Instituto Histórico e Geográfico de Alagoas, desde 1950, constituindo uma das mais importantes coleções de arte religiosa afro-brasileira do mundo. As peças pertenceram às mais antigas casa de cultos afro-brasileiros de Maceió e são testemunhas da perseguição, se não mesmo caça selvagem, aos praticantes e figuras desses cultos, sacerdotes e sacerdotisas simpatizantes e aderentes. Perseguição que progredirá e somente terá uma trégua no governo Arnon de Melo, em 1951. O “Quebra dos Xangôs”, configurou-se como um marco da intolerância religiosa, resultando na perda da identidade, memória e patrimônio cultural, na medida em que contribuiu com o êxodo dessa população, comprometendo decisivamente a formação da sociedade alagoana.

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