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ARTIGO

Porto Real do Colégio: história ameaçada

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Por Yolanda Dantas de Oliveira. doutora em Educação e professora da Universidade Federal de Sergipe | Edição do dia 26/11/2019

Matéria atualizada em 25/11/2019 às 23h06

Quando apagamos as marcas da nossa história deixamos de ter passado. O homem é um ser histórico cuja identidade se faz ao longo do seu desenvolvimento no tempo: no modo como produz a cultura, como pensa e se organiza no seu grupo social e como organiza o espaço onde vive, a casa, a rua, o bairro, a cidade. Preservar essas marcas é condição para não perdermos os elos com o passado. Elas permitem conhecermos as diversas experiências humanas em espaços e tempos diferentes e que reafirmemos, assim, para as novas gerações, a nossa humanidade. Os registros históricos guardam em si informações que indicam o modo como, porque e o que impulsionou os homens a agirem como agiram em tempos diferentes. Nessa perspectiva, preservá-los é fundamental e, por isso, é não só de responsabilidade individual, mas também coletiva e, nesse caso, cabe ao poder público manter e proteger o que é de todos.

Mas, nem sempre é o que se vê. Em Porto Real do Colégio-AL, minha terra natal, os governantes têm dado exemplo de desrespeito à sua história, à sua identidade, ao seu passado, aos seus afetos. No dia 4 de julho passado, escavadeiras avançaram sobre o Coreto na principal praça da cidade, mas graças a revolta da população a ação foi abortada, embora, dele, parte significativa tenha sido destruída, conforme vídeos postados nas redes sociais. Esse Coreto é de 1949, monumento de formato redondo destinado a eventos culturais e políticos. Na mira das máquinas também estava o Obelisco ao lado, o “Pirulito”, que é de 1952, uma homenagem à independência política da cidade. Ambos integram o principal conjunto arquitetônico local, com a Igreja Católica, Prefeitura Municipal, Açougue Público e a Delegacia de Polícia. O Ministério Público foi chamado a intervir nesse impasse entre a população e a Prefeitura. Espera-se que prevaleçam a lei, o bom senso e a sensibilidade quanto a essa causa que é de interesse do povo colegiense. Outros ultrajes à história dessa cidade já haviam ocorrido. Na década de 1960, o vigário resolveu “modernizar” a Igreja Matriz. Sabemos ser esse personagem, também detentor do poder de convencer pela palavra, às vezes, até pela manipulação da fé. Quem se atreveria, à época, contestar o que ele dizia? Assim, assistiu-se passivamente serem destruídas belas características da arquitetura jesuítica impressas na nossa Matriz, que lhe davam identidade arquitetônica e filosófica como, arcos, colunas cilíndricas e o altar-mor adornado em alto-relevo. A bela pintura interna, com elementos da fé cristã e da história dessa fé, foi apagada. De igual modo, o conjunto arquitetônico da Estação Ferroviária foi totalmente desfigurado. Parte significativa do cais do porto, a balaustrada e a escadaria, um dos acessos à margem do rio, foram apropriados e transformados em casas, bares e quintais particulares. A bela visão do Velho Chico e o acesso à sua margem pela Rua Fernandes Lima desapareceram. Ao que parece, a gravidade de fatos como esses começa a ser compreendida pelo povo. É preciso exigir dos governantes compromisso com o bem-estar, com a história e o crescimento cultural da população.

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