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Opinião

A ironia de Machado de Assis

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Por Agamenon Magalhães Júnior - ensaísta, gramático e educador | Edição do dia 25/03/2020

Matéria atualizada em 24/03/2020 às 22h21

Machado de Assis escreveu tão surpreendentemente bem que até hoje seu estilo inspira escritores e cativa leitores por toda parte. A cada leitura ou releitura que faço do Bruxo do Cosme Velho, fico imaginando como ele chegou àquele argumento, como construiu determinado enredo ou elaborou diálogos tão instigantes. Ele ainda é o maioral, o escritor por excelência, o todo-poderoso das palavras. Dos mil recursos de que Machado de Assis se utilizou, é meu objeto de estudo (e encantamento) o “humor irônico”. Cada palavra utilizada pelo mestre tinha rigor cirúrgico.

Apesar da própria gramática da Língua Portuguesa ensinar o que seja “ironia”, como recurso estilístico (“consiste em utilizar um termo em sentido oposto ou usual, obtendo-se, com isso, efeito crítico e humorístico”), Machado colocava um ingrediente no caldeirão que ainda não se descobriu. No romance “Helena”, capítulo 6, o mestre escreveu: “A primeira das duas mulas que [o preto] conduzia, olhava filosoficamente para ele”. Nota-se o traço irônico no uso inusitado do advérbio “filosoficamente” para descrever o olhar do animal. Sem falar que é frequente na obra machadiana a aproximação entre burros e filósofos. No primeiro livro de Machado, “Ressurreição”, assim escreveu com irreverência já no primeiro capítulo: “Vieira era um parasita consumado, cujo estômago tinha mais capacidade que preconceitos, menos sensibilidade que disposições (...). Nasceu parasita como outros nascem anões. Era parasita por direito divino”. Humor e descrição caricata de personagem teriam espaço garantido nas narrações do mestre. Com tom de comicidade, Machado escreveu sobre traição em “Memória póstumas de Brás Cubas”: “– Você janta conosco, doutor, disse-me Lobo Neves. – Veio para isso mesmo, confirmou a mulher; diz que você possui o melhor vinho do Rio de Janeiro”. Ironia machadiana pura. Com efeito, Lobo Neves possuía o melhor vinho para Brás Cubas: sua mulher Virgília, que os dois (o marido e o amante) bebiam na mesma taça. Em seu penúltimo romance, o incrível “Esaú e Jacó”, de 1904, nos faz rir com o texto: “Era dançarina; eu mesmo já a tinha visto dançar em Veneza. Pobre Caponi! Andando [na rua da Quitanda], o pé esquerdo saía-lhe do sapato e mostrava no calcanhar da meia um buraquinho de saudade”. O tal “buraquinho” tem valor cômico e irônico. O “buraquinho” na meia da ex-bailarina é um símbolo de decadência, em contraste com o passado de glórias. É a nostalgia do apogeu, descrita com humor pelo Conselheiro Aires, que a conheceu em melhores dias. Machado se valia desse caminho estilístico. Em tempo, não é à toa que a palavra “ironia” etimologicamente significa “dissimulação”. Grande Machado, fingidor mágico das palavras. Na obra-prima “Dom Casmurro”, o personagem Bentinho usa um eufemismo irônico para dizer que todos os seus velhos amigos estão mortos, ou seja, estão debaixo da terra, estudando a geologia dos cemitérios, assim: “Os amigos que me restam são de data recente; todos os antigos foram estudar a geologia dos campos santos”. Dou “mil vivas!” ao maior de todos os escritores porque seu humor sofisticado me faz viajar por mundos sempre com um sorriso ensolarado.

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