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Opinião

Sem comando

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Por Marcos Davi Melo. médico e membro da AAL e do IHGAL | Edição do dia 23/05/2020

Matéria atualizada em 22/05/2020 às 22h19

No ano de, um grupo de 4 bravos jangadeiros alagoanos deixou a Pajuçara em uma jangada de seis paus, cujo nome era “Independência”. O objetivo era chegar ao Rio de Janeiro para a celebração do centenário da Independência. Chegaram lá 98 dias depois, após enfrentar Sol a pino e tempestades marítimas. Nesta semana, um outro grupo de jangadeiros fez uma primorosa manifestação na mesma Pajuçara: enfileiraram jangadas com brancas velas e fumos que tremulavam aos ventos da manhã. Uma faixa estendida na areia apelava: “Fique em casa!”. Os jangadeiros mostraram civilidade e comando.

No mesmo dia da manifestação cívica dos humildes jangadeiros, o ilustre e medalhado general que atua como ministro da Saúde expedia um documento onde ampliava o uso de cloroquina no SUS, uma medida criticada por todas as sociedades científicas mundiais e nacionais da linha de frente do combate à pandemia e que tinha sido evitada enquanto o ministério foi ocupado por dois médicos que seguiam uma linha técnica e científica e, por isso, mesmo foram demitidos. A cloroquina, enfim, seguia o seu destino político ,agora revestida não com o jaleco branco, mas com um invólucro verde oliva. A pandemia de Covid-19 avança e toma uma conotação ainda mais política do que no seu início, quando o presidente Bolsonaro a classificou debochadamente como uma “gripezinha”, afirmando que, por ser “atleta”, não seria incomodado por ela, que era uma doença que acometia só “idosos” - a cloroquina seria a medicação milagrosa que curaria a enfermidade. Agora, a sua motivação para incrementar o uso da mesma droga é que, como estamos em uma “guerra”, vale tudo, até o uso de uma droga que, mesmo na versão dele, pode não ter uma garantia de eficácia: a cloroquina. “Mas numa guerra, vale tudo!”, já tentava justificar. A arma “milagrosa” para enfrentar uma “gripezinha” e uma “guerra” é a mesma!”. O distanciamento social, arma concreta preconizada pela ciência, jamais teve seu apoio. Pelo contrário, foi sempre condenado por Bolsonaro. . Ad latere e em plena pandemia que se agrava muito no Brasil, o governo federal emitia uma MP que blinda os servidores e gestores públicos do cometimento de arbitrariedades, o que respaldaria tanto o uso indiscriminado da insustentável cloroquina, como da tubaína, recomendada pelo presidente para ser consumida pela “esquerda”. O populismo político na sua ganância perpétua de ter respostas imediatas e mistificadoras para seus adeptos, metamorfoseia-se a cada momento de acordo com as conveniências e necessidades e foca somente em seus objetivos políticos imediatos - manter o poder - mesmo que a médio e a longo prazos, os prejuízos sejam enormes para a Nação, para seu povo, e envolva e ameace macular e comprometer as imagens de instituições nacionais que são respeitadas e aclamadas por sua honorabilidade e pelo respeito às suas funções constitucionais, como as veneráveis Forças Armadas e a Polícia Federal. No início do século passado, o Rio de Janeiro e o restante do País eram assolados por epidemias e as condições sanitárias eram péssimas. Osvaldo Cruz comandou uma campanha de vacinação em massa. Houve gigantesca resistência, a Revolta da Vacina: o Exército nacional atuou e foi fundamental para que a população fosse vacinada. O País agora está enfrentando o agravamento da pandemia, mas sem comando técnico no Ministério da Saúde. Quem vai pagar essa conta?

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