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Opinião

Isnaldo Bulhões, o último dos moicanos do Sertão alagoano

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Por Serginho Alencar. sociólogo formado pela Universidade Federal de Alagoas e bacharel em Direito pelo CESMAC. | Edição do dia 01/08/2020

Matéria atualizada em 31/07/2020 às 21h51

Certa feita, eu vi uma publicação onde estava explicito que, a melhor forma de falar com os que partiram do nosso plano físico, é através do silêncio. Ou seja, nas boas lembranças, nas orações, calado, contemplando uma foto da pessoa que partira, e, em assim sendo, a comunicação continua. Provavelmente, e por essa razão, quando alguém parece, temos tanta dificuldade em expressar os nossos sentimentos, em lidar com aquele vazio que toma conta de nós.

Por outro lado, é impossível ficar calado diante de Isnaldo Bulhões, logo ele, que fazia da boa conversa um dos maiores prazeres da sua feliz vida, homem da palavra fácil, da história bem contada, da riqueza de detalhes, e da memória voraz e invejável. No trato pessoal era um craque, era um ás, estava sempre pronto para ajudar e dar conselhos. As suas conversas sempre tiveram duas vertentes principais: futebol e política, na primeira, sempre entravam em campo o seu glorioso Vasco da Gama, e o seu também amado Canarinho do Sertão, – “Ipanema Atlético Clube”. Já na política, o bate-papo girava em torno do seu rincão natal, à querida e amada Santana do Ipanema. Na condição de homem público, eram visíveis e predominantes os traços dos ideais republicanos, sobretudo de caráter, honradez e dignidade. Como político, era uma “águia”, tinha a capacidade de enxergar além do horizonte, dono de uma inteligência privilegiada, movia como ninguém as peças no tabuleiro do xadrez eleitoral. Os Moicanos era uma tribo indígena norte-americana, que no início viviam em torno do vale do rio Hudson, no estado de Nova Iorque, no romance histórico de James Fenimore Cooper, lançando em 1826, que tem como enredo, acontecimentos relativos à guerra Franco – Indígena, o título “O Ultimo dos Moicanos” passou a significar o último de uma espécie “RARA E VALIOSA”. Talvez por essa razão, no último dia 08/07/2020, quando o cortejo do “Nadinho” passou nas ruas da Rainha do Sertão, e, que provavelmente o seu corpo já estava frio, o povo cariosamente ocupou calçadas e praças, levando para ele o último calor humano. Pois, saiba meu amigo, que lá no “torrão querido, pedacinho meu Brasil”, (como diz a letra do hino santanense composta por Remi Bastos), os seus irmãos sertanejos já sentem saudades do seu abraço fraternal, e das boas e sábias estórias que você sempre tinha para contar. O conheci nos idos de 1988, por ocasião do congresso da União dos Estudantes de Santana do Ipanema — UESI, entidade representativa da classe estudantil secundarista, onde fui com outros companheiros da UESA – União dos Estudantes Secundarista de Alagoas. Posteriormente, anos mais tarde, em meados de 1991, voltamos a nos encontrar, desta feita, lá no “SENADINHO” um encontro quase diário, com personalidades políticas como: João Caldas, Zé Elias, José Alfredo Noia, Arnaldo Carneiro, Eraldinho Bulhões, Luciano Goes, Olival França, e outras dezenas de amigos. Na seqüencia, já em 1994, estava totalmente integrado ao seu circulo de amizade. Hoje também, sinto-me um pouco órfão, foram mais de duas décadas de convivência, lições e aprendizados, sentirei falta da boa conversa, do seu carinho, e do mau-humor eventual e pouco duradouro, visto que não guardava mágoas, nem exercitava o rancor. E fico triste, porque não mais ouvirei aquela voz inconfundível do outro lado da linha telefônica me chamado de “Alencas” Vai com Deus meu amigo. Vai em paz, “Ultimo dos Moicanos do Sertão Alagoano”.

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