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Opinião

Verdades fermentadas

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Por Alberto Rostand Lanverly. presidente da Academia Alagoana de Letras | Edição do dia 16/09/2020

Matéria atualizada em 15/09/2020 às 22h38

Nos tempos de colégio, Jesualdo detestava quem lhe chamava por apelidos. Sempre o respeitei e, talvez por essa razão, nos identificávamos facilmente. O destino nos separou. Tempos atrás, ele me descobriu através do Facebook, manteve contato e reatamos nossos diálogos.

Jesualdo me ligou contando que anos atrás viajou para a Europa, primeira vez no avião. O destino era Paris, gostaria de conhecer a cidade luz. Tudo começou, quando no interior da aeronave detectou, para sua surpresa, que o guarda malas imediatamente acima de sua poltrona estava ocupado com uma bagagem que não lhe pertencia. A confusão foi grande até ser convencido que a reserva dos lugares era exclusiva para sentar, mas não onde colocar pertences. Iniciado o voo, a aeromoça, ofereceu bebidas. Jesualdo escolheu uma dose dupla de escocês para minimizar a tensão. Ao ser questionado se aceitaria um whisky, seu vizinho de cadeira, um padre que até então somente rezara o terço, respondeu: – Prefiro ser agarrado selvagemente por uma prostituta do que botar uma gota desse álcool na boca! Mais do que depressa Jesualdo devolveu a bebida e disse: – Eu não sabia que tinha essa opção! Mais uma vez orientado de que era força de expressão do representante da Igreja, continuou degustando o seu drink. Na terra do Louvre passeou bastante, tendo, dias depois, embarcado no trem de grande velocidade TGV com destino a Londres. Assim que deixou a estação foi acometido de uma dor de barriga que o preocupava. Levantou-se e caminhou no sentido da frente do trem. Encontrou alguns banheiros, mas não via maçanetas na porta. Retornou a sua origem para questionar alguns conhecidos como agir. Foi orientado que no local, encontraria um botão escrito “push”. Aquela era a chave que faria a porta deslizar, abrindo. Imediatamente retornou em busca do sanitário. A dor de barriga aumentava. Os passos cada vez mais rápidos, enquanto os joelhos se espremiam, tentando prender algo que estava para explodir a qualquer momento, até pelos ouvidos. Chegando no destino, viu o botão que procurava mas não entendeu que era só apertar para abrir. Suas tripas pareciam batalhar entre si, fazendo um barulho infernal. Já desesperado, colocou seus dedos na beirada da porta, puxando-a com toda força para trás. Conseguindo escancará-la. Mas para sua surpresa lá dentro estava sentada uma senhora fazendo o mesmo que ele tanto desejava. A mulher gritou. Jesualdo correu no sentido contrário do seu acento e o que ele menos queria, aconteceu. Se lambuzou todinho, enquanto seguiu até o restaurante do trem, onde entrou em um outro banheiro, mas era tarde demais. Por mais que usasse papel higiênico, pior a sujeira ficava. Com medo da confusão que causara, praticamente arrombando a porta do WC com uma pessoa dentro, e ainda por cima mal cheiroso, somente retornou ao seu assento no final da viagem. Figuraça o Jesualdo. Acho que ele só me conta verdades fermentadas.

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