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Opinião

O ciclo vicioso

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Por Caroline Pestana – escritora (@carolinepestanaoficial) | Edição do dia 13/10/2020

Matéria atualizada em 12/10/2020 às 21h59

Eu vivo de escrever. Escrevo para o blog, para o jornal, para oficinas, escrevo no escritório, escrevo para a faculdade, escrevo para o instagram, para mim mesma; mas sempre sinto que não escrevo. É o mesmo com a leitura. Leio um livro atrás do outro; um de manhã, outro de tarde e um ebook de noite – aquele aparelhinho maravilhoso que ganhei de aniversário e que me permite ler no escuro sem cansar a vista. Mas não importa o quanto eu leia, sempre acho que não é suficiente. Tem sempre um jornal, ou uma revista, ou um artigo, ou um clássico, ou uma lista inteira de livros que ainda não li.

Antigamente, isso me incomodava mais, até perceber que é tudo intriga da ansiedade. Não importa o quanto você leia, todos os dias são lançados novos livros. Agora mesmo, tem um montão de escritor digitando em suas casas. E o mesmo acontece com filmes, séries, artigos, e com o nosso próprio cérebro, que nunca para de pensar coisas novas (ou repetir ciclos internos). A verdade é que alguém, em algum momento, confundiu o significado de ser “antenado” com ser uma máquina devoradora de conteúdo, e criou um poço de ansiedade. No meu caso, eu culpo o twitter. Uma rede social viciante, onde entro toda manhã para ver as notícias, as novidades, me atualizar (viu como também sou vítima?). E quando entro, todo mundo está comentando sobre as mesmas coisas, por que cada nova hashtag ou tópico aparece à direita, com o número de tweets sobre o assunto – um número que só sobe. É como se tivesse uma obrigação implícita para você comentar também. E a mesma coisa acontece em outras redes sociais. Todos os dias criam-se desafios, tags, filtros, e a novidade tem que ser experimentada, ou você não será antenado. Mas a pergunta é: por que é que a gente quer tanto ser antenado? Não deveríamos nos preocupar mais com nosso bem-estar e saúde mental do que com o seguir modas instantâneas? Por anos reclamamos dos ideais inacessíveis das passarelas e deixamos passar as cobranças invisíveis das redes sociais? Porque você pode até pensar que toda essa cobrança é interna, fruto da nossa própria ansiedade, mas já existem inúmeros artigos e filmes que mostram que toda a rede é programada para te manipular. Semana passada, li um livro de uma autora americana que fala exatamente sobre a ansiedade criada em torno das redes sociais. Na mesma semana, saiu um filme a respeito, criticando todo o formato de uso e manipulação de dados. Inúmeros conhecidos assistiram ao filme, se disseram chocados com todas as informações, e sabe qual a primeira coisa que fizeram? Postaram nas redes sociais. E sabe a pior parte? Quando você tenta falar sobre esse desapego, sobre desconectar, tem alguém de prontidão para lançar algum filtro ou desafio para que todos respostem sobre saúde mental. Estamos vendendo nossa própria privacidade, nosso bem estar e nossa independência, aderindo a um ciclo vicioso, apenas para sermos parte da nova moda.

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