Gazeta de Alagoas
Pesquise na Gazeta
Maceió,
Nº 0
Opinião

Um ano de saudades

.

Por Caroline Pestana – escritora - @carolinepestanaoficial | Edição do dia 18/12/2020

Matéria atualizada em 17/12/2020 às 21h52

Dezembro é, por essência, um mês saudoso. Relembramos nossos passeios, aquisições, vitórias e derrotas, normalmente com carinho, refletindo sobre o ano que se passou enquanto ansiamos pelo que está por vir. Comecei a ter um olhar diferente para o mês de encerramento neste ano tão único. Me parece que será difícil encontrar pessoas que sentirão saudades de 2020, mas considero ainda mais difícil encontrar alguém que durante o ano todo não tenha sentido saudade.

O termo, que só existe na língua portuguesa, significa o sentimento de tristeza ou melancolia devido à ausência de uma pessoa, uma coisa ou um lugar. Esse ano experienciamos em conjunto um fenômeno único: a saudade do que não vivemos. É algo familiar, muito próximo daquela ansiedade que nos envolve quando fazemos planos. Talvez a única coisa mais empolgante que viajar, seja planejar uma viagem. Quem nunca pesquisou roteiros, anotou restaurantes ou livrarias para visitar, reservou ingressos, sonhando com aqueles dias milimetricamente programados de exploração cultural e prazer? E isso se estende para qualquer área. O planejamento da sua festa de aniversário, da pós-graduação ou daquela reforma na sua casa.

Vivemos planejando, idealizando versões melhores de nós mesmos e de tudo o que nos cerca. Somos seres inquietos, não descansamos após ocuparmos o mundo todo, então agora, sonhamos continuar espaço afora. Então é de se esperar que não estávamos preparados para enfrentar nossa sede por mobilidade. Não importa o grau, mas todo mundo sentiu na pele o desespero por movimentar-se em 2020. Mesmo o perfil sedentário, ao ficar isolado em sua casa, começa a andar em círculos, olhar pela janela, ansioso por uma simples volta no quarteirão. Há ainda mais forte a saudade dos amigos, da companhia, do riso, do abraço, das pessoas das quais tivemos que nos despedir nesse ano tão difícil, e claro, a saudade dos nossos planos. Foi um verdadeiro choque descobrir que não, não temos total controle de nossas vidas.

Podemos sim planejar, minuciosamente, viagens, carreiras, festas e vidas inteiras, mas a execução desses planos não depende apenas de nós. Posso estar soando como uma anti-coach, e talvez isso seja necessário, mas a verdadeira lição que 2020 nos deixou foi da nossa falta de controle. Nós humanos, como um grupo, nos vemos como seres poderosos, capazes de decidir sobre tanta coisa, tantas vidas, o destino do próprio planeta. E de repente tivemos um pequeno gosto da nossa insignificância perante a natureza. Em poucos meses, uma doença desconhecida muda todo o nosso modo de viver. Planos são cancelados, rotinas são reajustadas e nos surpreendemos com nossa capacidade de nos adaptarmos, como sociedade, ao novo desafio. Então quando penso em 2020 penso na saudade daquele lanche que não podemos mais comer, do passeio que seria hoje, da viagem que seria mês que vem, do bar em que iríamos na sexta a noite, até mesmo para não pensar na saudade apertada das pessoas que não sobreviveram a este ano. Surge a saudade de todas as coisas que queríamos ter feito, e não fizemos. E coube a cada um de nós escolher entre a paciência ou o desespero. A paciência de esperar, de fazer planos novos, de adaptar-se. Ou o desespero de arriscar que aquele bar seja o último.

Mais matérias desta edição