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Opinião

Não passarão

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Por PAULO MEMÓRIA - jornalista e cineasta | Edição do dia 23/02/2021

Matéria atualizada em 22/02/2021 às 21h37

É lamentável que o país resvale para um debate de fundo do poço, como este sobre o destino deste pseudo deputado federal Daniel Silveira, um brucutu desmiolado e exemplar pronto do que existe de mais reles na natureza humana. Os bolsonaristas são ávidos em defender a teoria de que “bandido bom é bandido morto”, atacando a política de direitos humanos, sob a tese que de “os direitos humanos são para os que possuem humanos direitos”. Esta mesma asserção, entretanto, não é válida para eles, pela similaridade, na qual não deveria haver tolerância para os intolerantes. Qual deve ser o limite da condescendência no que diz respeito à defesa do Estado Democrático de Direito? A prisão do deputado energúmeno pelo Supremo Tribunal Federal suscita este debate. O STF tem por atribuição maior, salvaguardar a constituição federal, porém, o direito revela que a legislação é passível de interpretações quanto à sua aplicabilidade. Por isso existe o STF, para interpretar a constitucionalidade da leis e tomar as decisões nos limites do devido processo legal. O caso do iletrado Daniel Silveira, passa a ser um desafio para a democracia, não pelo personagem, fruto do imenso analfabetismo político Brechtiniano do povo brasileiro. Ele evidencia que uma significativa parcela da sociedade demonstra ter sérios problemas de cognição e formação de caráter, claramente portadora de transtorno de personalidade obsessiva e psicopata. Por esta razão são eleitas figuras sem biografia, escrúpulos morais e sem um mínimo senso de humanidade. São defensores de políticas de ódio, torturadores, AI-5 e da volta da ditadura militar. Está óbvio que parte da nossa sociedade não possui consciência moral, o que produz a formação da opinião pública, a partir de uma interpretação da realidade completamente distorcida, com manifestações desequilibradas e fora de qualquer princípio de racionalidade e razoabilidade. Muito dos nossos compatriotas estão distantes dos princípios éticos e com grave deformação de natureza psicológica. Na melhor das hipóteses, trata-se de uma sociedade enferma, pois a pressuposição mais grave, é de que esta seja mesmo a essência da nossa civilização. Não é possível identificar na lógica e na razão, um povo que defenda um governo que atenta contra as conquistas democráticas, que defende o negacionismo científico em tempos de pandemia ou que faça a defesa apaixonada de um deputado chinfrim e truculento, sem chegarmos a conclusão de que “existe algo de podre no reino da dinamarca”, como diria o bardo Willian Shakespeare em Hamlet. Não dá mais para transigirmos com apologistas da violência política, que está no limite de resvalar para a violência física, como método de manutenção de poder. Não disputamos mais a hegemonia política pelo confronto das ideias, mas tão somente pelo uso da força bruta. O Brasil caminha para a consolidação do fascismo patológico, pois sequer podemos afirmar sê -lo ideológico, por tratar-se de uma versão fascista liderada por ignorantes, desqualificados e periculosos.

A literatura ensina, na frase do anarquista e um dos líderes da Guerra Civil Espanhola Buenaventura Durruti, que “o fascismo não se debate, o fascismo se destrói”. Não faço apologia do uso da violência contra as hordas de bestas humanas como Daniel Silveira, Bia Kicis, Samuel Malafaia, General Heleno e congêneres ou as gangs do gabinete do ódio liderado pela família presidencial. O bom combate deve ser feito pela sociedade civil organizada e suas instituições representativas, dentre as quais o duvidoso STF. Temos, por dever de obrigação, que reagir a truculência cada vez mais institucionalizada em nosso país. O filme Por Quem os Sinos Dobram, de 1943, adaptação do livro homônimo de Ernest Hemingway, com Ingrid Bergman, é um exemplo que não existem limites para derrotar os regimes totalitários.

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