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Opinião

O RACIONALISMO SOBREVIVERÁ?

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Por MARCOS DAVI. MÉDICO E MEMBRO DA AAL E DO IHGAL | Edição do dia 28/05/2022

Matéria atualizada em 28/05/2022 às 00h11

Em uma sessão do Conselho Superior do Ministério Publico Federal, a troca de ofensas de tão fortes quase termina em pugilato. Um deputado apalpava os seios de uma colega no plenário. Outro se vangloriava publicamente da “facilidade das mulheres ucranianas”. Um outro é punido pelo Judiciário, mas é perdoado. Deputados e vereadores são denunciados por racismo explícito contra colegas. Operações policiais em favelas batem recordes sucessivos em letalidade. Os moderados estremecem, mas os protagonistas da barbárie ganham prestígio, votos e viram até ídolos das redes sociais, onde os que acreditam na força bruta e na violência predominam. A violência sempre foi uma preocupação para a filosofia e para os profissionais da área do comportamento humano.

Vamos à Europa do século XVI. O continente vivia tempos tenebrosos e não só as epidemias devastavam a população e a economia, pois a violência campeava.  Embora na França o Edito de Nantes (1598) sobre a tolerância religiosa tivesse posto um final à guerra religiosa da época, nem por isso haviam cessado as formas distintas de pensar por parte da Igreja Católica. A Igreja se sentia desafiada não só pelo protestantismo, mas também pelas teses das novas ciências naturais empíricas. Era sobretudo a teoria de Copérnico, para quem não era o Sol que girava em torno da Terra, mas sim esta que girava em torno do Sol, que punha em questão a concepção de mundo advogada pela Igreja. Todas as teses divergentes, fossem teológicas, filosóficas ou científicas, constituíam material explosivo do ponto de vista político e social, sendo capazes de destruir carreiras e existências. Esse foi o caso do filósofo e monge dominicano Giordano Bruno, queimado no Campo de Fiori, em Roma, no ano de 1600, por defender a tese da infinitude do universo, confirmada séculos depois por Einstein.

A Ordem dos Jesuítas, fundada em 1534, tinha por missão modernizar a Igreja intelectualmente, visando enfrentar os novos acontecimentos. René Descartes estudou em uma delas. Nas obras de Descartes, a palavra mais encontrada é “bom senso”, para ele esse era o ponto de partida para qualquer atitude humana, e ele escreveu: “Na ruptura reflexiva com o mundo dos objetos, o sujeito se dá conta de que ele próprio é quem tempera a realidade “. Essa concepção, depois, foi chamada de dualismo. E por ter permitido que a atividade da razão mantivesse sua autonomia em relação ao mundo, Descartes foi o fundador do racionalismo (primazia da razão). Atualmente, a Igreja Católica está aliada à ciência, performando pelo diálogo, pela paz e alinhada ao racionalismo. Mas é como se vivêssemos o retorno do pior espírito da era medieval: redes sociais semeiam a agressividade, a intolerância e o ódio. As pessoas racionais e moderadas as evitam, pois são agredidas e ofendidas a qualquer pensamento divergente.  Os radicais das redes sociais já demonstraram a sua inconsequência na pandemia de Covid-19, quando foram negacionistas truculentos. Quando atentaram e atentam contra a democracia e pedem golpe contra as instituições democráticas e querem ganhar tudo na bala e a violência é institucionalizada. O bom senso e o racionalismo de Descartes precisam ser restaurados, mesmo que o custo seja alto. A civilidade, a ciência e a democracia precisam sobreviver à violência do obscurantismo, como sempre ocorreu na história mundial.

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