Gazeta de Alagoas
Pesquise na Gazeta
Maceió,
Nº 0
Política

“É A ÚNICA OPÇÃO QUE TEMOS”, DIZ PRESIDENTE DO CREMAL

.

Por thiago gomes | Edição do dia 23/05/2020

Matéria atualizada em 22/05/2020 às 22h27

O presidente do Cremal, Fernando Pedrosa, é um dos defensores ferrenhos da medicação. Por este motivo, diz que está sendo alvo de muitas críticas, inclusive dos colegas de profissão. Ao contrário do que afirma a maioria dos integrantes da comunidade científica, Pedrosa sustenta que há evidências, sim, da eficácia da hidroxicloroquina em estudos já publicados, e revela que muitos médicos de Alagoas estão prescrevendo a droga e até usando quando são contaminados, obtendo resultados satisfatórios.

“Concordo com o uso porque é a única opção terapêutica no momento. Se tivéssemos várias opções diria que o debate está aberto. Todas as pessoas importantes famosas, tomaram a cloroquina, inclusive o maior infectologista do Brasil, Davi Uipp, que prescreveu para ele próprio. O doutor Kalil, que atendeu o Lula, também tomou. E além do mais, as evidências existem, sim, mais de 76 pesquisas, que falam da eficácia. Se eu adoecer, vou querer tomar. Os que estão na mídia, politizando a situação, estão receitando a cloroquina em seus escritórios particulares”, denuncia.

Ele ainda condenou a postura da Sociedade Brasileira de Infectologia por aconselhar a não utilização do medicamento em casos de covid-19. Segundo ele, há interesses implícitos nesta decisão da entidade nacional “que não é o de salvar vidas”. Pedrosa diz que recebe diariamente depoimentos de médicos alagoanos que tomaram a cloroquina ou receitaram aos pacientes cujos efeitos foram positivos e com recuperação plena.

“Conversei esta semana com o diretor médico de um grande hospital em Maceió que tratou mais de 30 pessoas com a hidroxicloroquina e ninguém ficou internado. Quando não tem nada no mercado, o jeito é seguir o que pode ajudar. Ou prescreve a cloroquina ou deixa o paciente em casa morrer, o que seria uma atitude criminosa”.

Ele ainda denuncia que a Farmácia Pública de Alagoas, a Farmex, dispõe da medicação, mas não distribuía às unidades até a semana passada, quando o Governo do Estado sofreu pressão. E divulgou que o Cremal fiscalizou UPAs e alguns hospitais, constatando que a cloroquina só foi enviada muito tarde, quando vários pacientes já tinham morrido.  

“Vamos esquecer os problemas políticos e vamos pensar nas pessoas. Sou médico há mais de 30 anos e jamais iria desaconselhar o uso de um medicamento que não tivesse eficácia”, defende.

Na opinião do presidente do Sindicato dos Médicos de Alagoas (Sinmed/AL), Marcos Holanda, a hidroxicloroquina pode ser administrada na fase inicial da infecção, com apresentação de sintomas mais fortes, como febre, dores no corpo, perda de olfato e paladar, além de tosse persistente. No entanto, prefere que se use com cautela, responsabilidade e ética. Também diz esperar que o médico tenha autonomia, não ignore o bom senso na hora da prescrição e que o governo disponibilize o remédio de graça.

“A hidroxicloroquina tem pouco uso profilático e está orientada para uso pelas equipes de saúde e não para população. E é administrada, associada à azitromicina, invermectina, quando o paciente já tem diagnóstico da doença ou apresenta toda sintomatologia que possa caracterizar Covid-19”, destaca.

O presidente do Conselho Regional de Farmácia de Alagoas, Robert Nicácio, alerta para a falta deste medicamento nos estabelecimentos. Ele conta que antes da pandemia a hidroxicloroquina custava, em média R$ 60, uma caixa com 30 comprimidos. Porém, há desabastecimento por falta de matéria-prima.

“A informação que nós temos é que grande parte dos estabelecimentos estão sofrendo com o desabastecimento da hidroxicloroquina, oseltamivir, nitazoxanida, da ivermectina e de outros medicamentos que estão sendo usados no manejo da covid-19 e da influenza. Isso se deve sobretudo a grande procura deste medicamentos e em especial da hidroxicloroquina que esbarra na falta de matéria-prima. As farmácias magistrais (manipulação) e os laboratórios farmacêuticos adquirem a matéria-prima do Oriente , principalmente da Índia e estão com dificuldades de fazer essa aquisição”, ressalta..

Ele revela um aumento de mais de 50% na compra desse remédio, após a divulgação em redes sociais e da grande mídia de estudos envolvendo a droga e comenta sobre as especulações e o impasse gerado em torno do assunto.

“Entendo que tudo isso acontece porque existem interesses políticos envolvidos em torno do uso deste medicamento. O momento, agora, é de manter a calma, a sensatez e ver os resultados que a ciência nos fornece. Temos estudos em andamento e outros em estágios bem avançados, inclusive no Brasil. Vamos continuar acompanhando e ver o que existe de comprovação científica para orientar a população de forma segura”, afirmou Robert Nicácio. 

‘NÃO HÁ FÓRMULA MÁGICA’, REBATE INFECTOLOGISTA

A diretora do Hospital Escola Hélvio Auto, infectologista Luciana Pacheco, considerou a pandemia e a mistura do debate entre política e ciência como um momento estranho. Ela explica que as sociedades de infectologia e pneumologia basearam o tratamento em estudos experimentais, já que não existia nenhuma droga para Covid, mas os resultados da semana passada mostraram que esta associação não modifica o curso da doença nos casos graves. 

“Há pouco tempo, qualquer colega que suspeitasse de um paciente com doença infecciosa, encaminhava para infectologista. Agora, todas as especialidades acham que pode tratar doença baseado numa fórmula mágica, que se grita aos quatro cantos que pode tratar a covid-19. E não é bem assim”.

Segundo ela, é preciso ter o mínimo de razão para manejar o paciente, minimizando os danos, principalmente nos cardiopatas, se a hidroxicloroquina for usada de forma indiscriminada. Ela diz que é imprescindível conhecer o histórico dos doentes para que a prescrição seja a mais acertada. 

“Com mais de 300 pessoas sendo atendidas por dia por coronavírus é impossível se saber o histórico. É muito arriscado prescrever a hidroxicloroquina”, destaca.

Mesmo assim, ela revela que a Sociedade Alagoana de Infectologia recomendou, há duas semanas, o uso do remédio no início no quadro para pacientes que podem evoluir para agravamento: idosos, pessoas com doenças crônicas e gestantes. Apesar da sugestão, ela não revelou se os especialistas estão manejando a substância e quais os resultados obtidos até agora.

No entendimento de Luciana Pacheco, o governo deveria focar o dinheiro, as ações, em manejo pré-hospitalar, reforçando a atenção básica, com exames laboratoriais e de imagem. Na opinião dela, só a receita para uso da hidroxicloroquina não vai adiantar. 

“Não é fórmula mágica e não se tem prova evidente disso. Alguns estudos iniciais foram testados na China e França, mas são pequenos, mal feitos, sem controle e alguns momentos se disse que tinha encontrado a cura. A partir de então, a droga foi usada politicamente. Foi baseado nestes experimentos que o governo brasileiro elaborou um protocolo que não foi assinado por nenhum médico e coloca o paciente contra a parede. Estão procurando uma fórmula mágica e virou uma questão política”, acredita.

Na semana que passou, Associação de Medicina Intensiva Brasileira, a Sociedade Brasileira de Infectologia e a Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia reuniram 27 especialistas para analisar medicamentos e terapias aplicados em pacientes com Covid-19. Segundo os órgãos, diversos procedimentos utilizados atualmente "carecem de apropriada avaliação de efetividade e de segurança".

De acordo com o documento formulado pelas sociedades médicas, a cloroquina e a hidroxicloroquina (receitadas usualmente para malária) não devem ser usadas como tratamento de rotina contra o novo coronavírus (Sars-CoV-2). Após revisarem três estudos, os especialistas afirmam que "as evidências disponíveis não sugerem benefício clinicamente significativo".

Mais matérias desta edição