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OPINIÃO

Como a Braskem escondeu o sumiço de cinco minas?

Alexandre Sampaio. Presidente da Associação dos Empreendedores no Pinheiro

Por . | Edição do dia 01/08/2020

Matéria atualizada em 31/07/2020 às 22h00

Há três coisas e o misterioso sumiço de 5 minas que unem os investidores das ações BRKM5 e os proprietários de 15 mil imóveis e de 4.000 empresas na capital de Alagoas.

A primeira é a indiferença das autoridades nacionais, estaduais e municipais. É inacreditável que, diante da maior tragédia tecnológica, ambiental e social de toda a história do Brasil – e a sexta maior do mundo – que está em curso aqui sob os nossos pés, em Maceió, nos bairros do Pinheiro, Bebedouro, Mutange e Bom Parto, reine a absoluta falta de empatia, a completa ausência dos gestores públicos diante de tamanha dor, de bilionários prejuízos, da insegurança vital de tanta gente que já perdeu ou está perdendo seu chão, sua referência, sua história. O colapso de 35 minas da Braskem (já conhecido há vários anos pela ANM) está provocando rachaduras, fissuras e quebramentos em vias e edificações numa área equivalente a quase 250 campos de futebol, atingindo 53 mil habitantes, avançando sobre 15 mil imóveis e afetando de modo irreparável a viabilidade de 4.000 empresas, das quais dependiam mais de 40 mil pessoas entre trabalhadores e empreendedores. A segunda coisa em comum é a falta de transparência. Assim como as 5 minas que sumiram dos sonares (Informe Técnico 02 de abril/2020 da CPRM divulgado nesta edição pela Associação dos Empreendedores no Bairro do Pinheiro) provam inequivocamente a culpa da mineradora na calamidade pública, não há mais como esconder a responsabilidade da Braskem na reparação do dano. Esta é a verdade bem escondida que trouxemos à tona. Agora quem está sob pressão da verdade é a mineradora e seus acionistas. Esta semana o CNJ – Conselho Nacional de Justiça – iniciou uma ação coordenada e transparente para mediar uma alteração no Acordo com a Braskem, atendendo às principais reivindicações das comunidades dos 4 bairros, com a participação da Associação dos Empreendedores e Associações de Moradores. Depois de tanta luta, uma luz na direção da transparência. O terceiro ponto é a certeza da impunidade de gestores públicos e privados. O que constatamos no olhar de paisagem de cada interlocutor com o qual nos deparamos em busca de socorro e de justiça é que a Braskem criou um Misterioso Estado Paralelo, às margens das regras de compliance, de governança corporativa e de ética pública. Uma estrutura subterrânea que, assim como suas cavernas de sal gema, perpassa verticalmente todas as camadas institucionais que estão exercendo algum poder ou influência no caso. Mas a história unirá as duas pontas do sistema pela única linguagem do capitalismo: o dinheiro. Os acionistas da BRKM5 - sigla das ações da Braskem na Bolsa de Valores - estão apenas começando a sofrer os prejuízos que já passam dos R$ 5 bilhões. Na ponta de cá, os moradores e empreendedores já estão amargando profunda dor e crise financeira há dois anos por causa desse gigantesco desastre tecnológico que empurrou para o subterrâneo qualquer traço de responsabilidade sócio ambiental e de cidadania corporativa que deveria reger uma empresa transnacional com ações nas bolsas de valores de São Paulo, Nova York e Madri. Em qualquer país civilizado essa misteriosa força que provoca tanta indiferença e inverdade já teria sido desvendada e os culpados, exemplarmente punidos.

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